Áudio revela policial negociando venda de loló e divisão de lucros com delegado na PB
Áudio: policial negocia venda de loló e divisão com delegado

Um áudio obtido pela investigação contra o delegado da Polícia Civil da Paraíba, Braz Morroni, e outros dois agentes, presos na terça-feira (2), revela o investigador Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como "Bomba", negociando a venda de loló com integrantes de uma facção criminosa que estariam presos. A gravação mostra Everton conversando com João Wicttor Alves de Lima, o "Vitor", apontado pela Justiça como responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas fornecidas pelos policiais, além de realizar transferências financeiras para o esquema.

Conteúdo do áudio

No áudio, Everton instrui Vitor a verificar quantos litros de loló estão disponíveis e gravar vídeos da droga para facilitar a venda. Ele também afirma que usaria um contato com acesso a uma linha telefônica dentro de um presídio para tentar comercializar o entorpecente. "Victor, quando tu estiver em casa, vê mais ou menos quantos litros de loló tem lá, faz uma mídiazinha, um vídeo do Bujão, tal, pra mostrar o loló, que eu vou mandar pro menino aqui, porque ele tá com uma linha no presídio, pra ver se a gente consegue vender esse loló", diz o investigador.

Em seguida, "Bomba" menciona que o dinheiro da venda será dividido entre cinco pessoas, incluindo o delegado Braz Morrone e "Mão Branca", apelido de Eduardo Jorge Ferreira do Egito. "Eu disse que, se ele vendesse, a gente dividia pra cinco. O que tiver aí, a gente divide entre eu, tu, mão branca, o delegado e ele", finaliza.

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Investigação detalhada

O secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, informou que a investigação durou mais de um ano e analisou mais de 40 mil áudios. "Mais de um ano de investigação, mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e Gaeco. A gente está combatendo a chegada do Comando Vermelho no nosso estado e agentes de segurança pública associados com traficantes alimentam essa facção para que possam retornar as drogas para as ruas. É uma gravidade importante de considerar", afirmou.

A operação também cumpriu mandados contra outros cinco suspeitos de integrar uma facção criminosa. A investigação começou em fevereiro de 2025, após denúncia de um traficante que relatou desvio de drogas apreendidas por agentes. Os investigadores estimam que o esquema movimentou cerca de R$ 10 milhões em vendas ao longo de quatro anos. Dos nove mandados de prisão expedidos, oito foram cumpridos na Operação Perfídus.

Quem é quem no esquema

Braz Morroni

O delegado Braz Morroni, da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), é descrito na decisão judicial como tendo participação ativa no esquema. Ele não apenas tolerava as ações dos subordinados, mas era beneficiário direto dos lucros com a venda de drogas desviadas. A investigação aponta que ele recebia repasses financeiros, cobrava rapidez na recuperação de valores de drogas vendidas a prazo e usava sua posição hierárquica para proteger o grupo. Em dezembro de 2025, ele teria ido pessoalmente à delegacia receber sua parte. A Justiça determinou prisão temporária, afastamento do cargo, bloqueio de bens e suspensão do porte de armas. Após audiência de custódia, a prisão foi mantida e ele foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.

Everton Rychelyson da Silva Aires

Conhecido como "Bomba", Everton é apontado como principal operador do grupo, elo entre policiais e traficantes. Ele guardava drogas desviadas, negociava carregamentos de cocaína e skunk, organizava a contabilidade clandestina, orientava sobre lavagem de dinheiro e atuava em esquemas paralelos de importação irregular e venda de anabolizantes. Sua prisão temporária foi mantida após audiência de custódia.

Eduardo Jorge Ferreira do Egito

O investigador "Mão Branca" participava diretamente da subtração de drogas, monitorava carregamentos, manipulava rastreadores e armazenava entorpecentes em casa. A decisão judicial destaca movimentações financeiras milionárias e ocultação patrimonial. Sua prisão temporária foi mantida.

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João Wicttor Alves de Lima, Brendo Roberth e Paulo Ricardo

João Wicttor, o "Vitor", era responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas fornecidas pelos policiais, além de fazer transferências financeiras. Brendo Roberth Fernandes Sobral, o "Breno", era subordinado de Vitor e atuava na guarda, refino e distribuição. Paulo Ricardo Barbosa de Souza, o "Galinha", era informante e distribuidor, fornecendo informações sobre depósitos de facções rivais em troca de parte das cargas desviadas.

José Alexandrino de Lira Júnior e Vanessa Dantas Fernandes

José Alexandrino, o "Júnior Lira", liderava a distribuição de grandes carregamentos no Sertão da Paraíba e no Rio Grande do Norte, financiando remessas interestaduais. Vanessa Dantas, sua esposa, era a tesoureira do esquema, usando contas para receber e pulverizar recursos do tráfico, com depósitos fracionados e saques sistemáticos para blindagem patrimonial.

Dankennedy Vieira

Dankennedy Vieira Brito da Silva, o "Babau", integrante da facção Nova Okaida, foi vítima do desvio de drogas e divulgou imagens que deram origem às investigações. Ele não foi preso.

Outros suspeitos

Três pessoas foram alvo apenas de mandados de busca e apreensão: Diego Ernesto Pereira Barros (ex-policial militar), Fabiano de Matos Farias ("Galego", preso por outros crimes) e Jobson Rodrigo da Silva. O ex-policial militar foi preso em flagrante por obstrução de Justiça e posse ilegal de arma, mas liberado após audiência de custódia. Sua defesa considerou a prisão "excessiva".

A defesa do delegado Braz Morroni afirmou que "é preciso ressaltar o direito constitucional à presunção de inocência" e que "irá analisar os autos visando a adoção das medidas pertinentes para restaurar a liberdade do delegado", além de "provar sua inocência". O g1 não localizou defesas dos outros citados.

Funcionamento do esquema

Segundo as investigações, traficantes informavam aos policiais a localização de drogas de grupos rivais. Os agentes faziam a apreensão e repassavam as drogas aos informantes. O delegado Rafael Bianchi explicou: "Traficantes de confiança dos policiais informavam onde havia essa droga armazenada. Os policiais iam até o local, realizavam a subtração e repassavam essa droga para esses traficantes de confiança". O delegado André Rabello acrescentou que drogas destinadas à incineração também eram desviadas.

Além dos nove mandados de prisão, foram cumpridos 24 mandados de busca e apreensão e determinado bloqueio de R$ 10 milhões dos investigados.

Quem é o delegado preso

Braz Morroni de Paiva Júnior tem mais de 20 anos de atuação na Polícia Civil, nomeado em 2004. Atuou em Cuité, Itabaiana, Campina Grande e na Delegacia de Repressão a Entorpecentes, assumindo a DCCPAT em 2019.