Um intenso tiroteio entre facções criminosas rivais no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, aterrorizou moradores na tarde deste sábado (26). De acordo com relatos de testemunhas, homens armados do Comando Vermelho (CV) tentaram invadir áreas controladas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), especificamente as comunidades da Cidade Alta, em Cordovil, e Cinco Bocas, em Brás de Pina. A troca de tiros foi tão intensa que atingiu a movimentada Avenida Brasil, uma das principais vias de acesso à cidade, causando pânico entre motoristas e pedestres.
Disputa territorial no Complexo de Israel
O Complexo de Israel é um conjunto de cinco comunidades — Cidade Alta, Cinco Bocas, Vila Cruzeiro, Parque Proletário e Morro do Fubá —, todas localizadas na Zona Norte carioca. A região é historicamente palco de conflitos entre facções que disputam o controle do tráfico de drogas e de armas. Nos últimos anos, o Terceiro Comando Puro consolidou domínio sobre a maior parte do complexo, enquanto o Comando Vermelho tenta expandir sua influência a partir de áreas vizinhas, como o Complexo do Alemão.
Segundo informações da Polícia Militar, a tentativa de invasão começou por volta das 14h, quando criminosos do CV avançaram em direção à Cidade Alta e à Cinco Bocas. A reação dos traficantes do TCP foi imediata, resultando em rajadas de metralhadora e disparos de fuzil que ecoaram por toda a região. Moradores relataram cenas de desespero, com crianças sendo arrastadas para dentro de casa e comerciantes fechando as portas às pressas.
Reação policial e controle da situação
A Polícia Militar foi acionada e enviou unidades do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e do Grupamento de Intervenção Tática (GIT) para conter o confronto. Os agentes realizaram cerco tático nas principais vias de acesso, incluindo a Avenida Brasil, que precisou ser parcialmente interditada. Por volta das 16h, a situação foi controlada, mas equipes permanecem no local para evitar novos confrontos. Não há registro de feridos entre moradores ou policiais, segundo a assessoria da PM.
O clima na região, no entanto, continua tenso. Moradores ouvidos pela reportagem relataram medo de sair de casa e afirmaram que os tiroteios se tornaram frequentes. “A gente já se acostumou, mas nunca é normal. Toda vez que ouve tiro, a gente se tranca em casa e reza”, disse uma moradora da Cinco Bocas, que preferiu não se identificar. Outro residente da Cidade Alta contou que a invasão foi “a mais violenta dos últimos meses”.
Impacto na Avenida Brasil e no transporte público
O tiroteio causou reflexos imediatos no trânsito da região. A Avenida Brasil, que liga a Zona Norte ao Centro e à Zona Oeste, teve lentidão no trecho próximo ao Complexo de Israel por cerca de duas horas. Ônibus das linhas que passam pelo local foram desviados, e passageiros relataram atrasos. A CET-Rio informou que equipes atuaram para normalizar o fluxo.
O Complexo de Israel abriga uma população estimada em mais de 100 mil pessoas, segundo dados do Instituto Pereira Passos. A violência recorrente afeta diretamente a rotina dos moradores, que muitas vezes ficam presos dentro de casa durante confrontos. Escolas e postos de saúde da região chegaram a fechar as portas mais cedo neste sábado, como medida de precaução.
Histórico de conflitos na região
O nome “Complexo de Israel” foi adotado nos anos 1990 após a instalação de uma estrela de Davi no alto da Cidade Alta, símbolo do tráfico local. A área é controlada pelo Terceiro Comando Puro desde 2015, quando a facção expulsou o Comando Vermelho após uma série de confrontos. Desde então, o CV tenta retomar o território, resultando em episódios recorrentes de violência.
Em 2023, o Complexo de Israel registrou ao menos 12 confrontos armados entre facções, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. A ONG aponta que o número de tiroteios na região cresceu 30% no primeiro semestre de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior. A situação levou a uma maior presença policial, mas especialistas alertam que a solução passa por políticas públicas de segurança e inclusão social.
Moradores vivem sob medo constante
A sensação de insegurança é generalizada no Complexo de Israel. Muitos moradores relatam que os tiroteios começam sem aviso e podem durar horas. “A gente não tem sossego. À noite, o barulho de tiro é constante. Já virou rotina”, contou um comerciante da região. As facções impõem regras rígidas dentro das comunidades, como horários de funcionamento de comércio e proibição de certas cores de roupa.
A Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria de Ordem Pública, informou que mantém ações de patrulhamento na área, mas reconheceu a complexidade do problema. A Polícia Civil investiga a participação de líderes do CV e do TCP no conflito deste sábado. Até o momento, nenhum suspeito foi preso.
O tiroteio no Complexo de Israel reforça o cenário de disputa territorial que marca a criminalidade no Rio de Janeiro. Enquanto facções lutam por controle, a população civil segue como principal vítima da violência armada.



