Quatro pessoas morreram soterradas na tarde de sexta-feira (31) em um deslizamento de terra durante uma obra de ampliação em uma distribuidora de bebidas no bairro Nova Rosa da Penha II, em Cariacica, na Grande Vitória. As vítimas são o proprietário do estabelecimento, Vanderson André Santana, de 35 anos, e três pedreiros da mesma família: Ronival Moreira de Jesus, Rhuan Moreira da Luz e Valdomiro Moreira de Jesus. De acordo com a Prefeitura de Cariacica, a construção estava embargada havia um ano por irregularidades, mas foi retomada de forma clandestina.
O que se sabe sobre o acidente
O desmoronamento aconteceu por volta da tarde de sexta, quando os trabalhadores realizavam escavações no terreno. Imagens publicadas pelo próprio empresário em suas redes sociais, poucas horas antes do deslizamento, mostram a movimentação na obra e a escavação no barranco. Vanderson, que tinha mais de 150 mil seguidores, costumava compartilhar a rotina da distribuidora, que funcionava havia cerca de 15 anos no bairro. Ele deixa esposa e um filho pequeno.
Além de acompanhar o dia a dia do comércio, Vanderson também aparecia em publicações ao lado dos três pedreiros que morreram no acidente. Os vídeos vieram à tona após a tragédia e reforçam a tese de que a obra era conduzida sem os devidos cuidados técnicos.
Pedreiros eram da mesma família
Os três trabalhadores eram parentes e mantinham uma relação próxima. Ronival Moreira de Jesus, o mais velho, era irmão de Rosilda Moreira; Rhuan Moreira da Luz era filho de Ronival e sobrinho de Rosilda; e Valdomiro Moreira de Jesus era tio de Ronival e, portanto, também tio-avô de Rhuan. A informação foi confirmada por Rosilda, que compareceu ao velório neste sábado (1º) na escola municipal de Nova Rosa da Penha II.
"Meu irmão era um cara trabalhador. Só vivia para o trabalho. Meu sobrinho largou outro serviço para trabalhar com o pai e ajudar a família", disse Rosilda, emocionada. Ela contou que os três eram muito unidos: "Nossa família está sempre junto. O Juan era aquele sobrinho que é mais do que um filho para a gente. Nós ajudamos a criar."
As vítimas deixam familiares: Ronival deixa esposa e dois filhos; Rhuan deixa esposa e três filhos; Valdomiro deixa uma filha e um neto. O velório do empresário também ocorreu no mesmo espaço, e funcionários da distribuidora, amigos e parentes passaram pelo local para prestar as últimas homenagens. A família de Vanderson preferiu não conceder entrevistas.
Obra estava irregular e foi retomada sem autorização
A Prefeitura de Cariacica informou que a obra estava embargada havia um ano por irregularidades. Mesmo assim, os trabalhos foram retomados de forma ilegal. Na manhã deste sábado, engenheiros do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) estiveram no local e realizaram uma vistoria técnica. Segundo o engenheiro Giuliano Battisti, o corte no barranco foi executado em desacordo com as normas de segurança.
"Um corte totalmente reto, com 90 graus, coloca em risco tanto quem trabalha abaixo quanto os imóveis acima. Esse tipo de intervenção precisa seguir normas técnicas e isso, infelizmente, não aconteceu", afirmou Battisti. De acordo com o Crea, a obra teria sido retomada sem responsável técnico, depois que o projeto inicial não foi levado adiante.
A Polícia Civil investiga o caso por intermédio da Delegacia Especializada de Acidentes de Trabalho (Deat). As causas exatas do deslizamento ainda serão apuradas, mas a suspeita é de que a escavação sem contenção tenha provocado o desmoronamento.
Casa vizinha interditada e moradores sem teto
A Defesa Civil de Cariacica interditou três edificações após o acidente: a distribuidora onde ocorria a obra, um galpão e uma casa vizinha. Os moradores da residência interditada precisaram deixar o imóvel às pressas e não sabem quando poderão retornar. Lucas Dias, que mora na casa interditada, contou que estava no trabalho no momento do deslizamento, mas os pais e a irmã estavam no imóvel.
"Meu pai e minha mãe estavam embaixo e minha irmã na parte de cima da casa. Ela estava falando ao telefone quando ouviu o estampido. Depois viu que o barranco tinha descido e aconteceu a tragédia", relatou Lucas. Ele afirmou que a família sabia da obra no terreno vizinho, mas acreditava que ela estava paralisada.
"A obra ficou parada por quase um ano. Quando voltou, a gente ficou com medo, mas não podia fazer nada. Só pedia a Deus para que não acontecesse nada", desabafou. "Estamos sem teto", completou o morador, que agora aguarda uma solução da Defesa Civil.
O g1 segue acompanhando o caso e busca atualizações junto à Prefeitura de Cariacica e à Polícia Civil.



