Saúde de MS usada como moeda de troca em esquema de R$ 27 mi com livros
Saúde de MS vira moeda de troca em fraude de R$ 27 mi (15.07.2026)

Mensagens obtidas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) indicam que o sistema de regulação do Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso do Sul foi usado como moeda de troca em um esquema que movimentou mais de R$ 27 milhões. A investigação da Operação Gutenberg aponta que vagas para internação, exames e cirurgias eram oferecidas ou bloqueadas para pressionar ou convencer prefeitos a fechar contratos de compra de livros paradidáticos da Editora Avante.

Esquema usava serviços de saúde como chantagem

As conversas envolvem o então coordenador da regulação estadual do SUS, Ed Carlo Britto Burgatt, e o advogado Gabriel Taquino de Paula, apontado pela investigação como representante comercial da Editora Avante. Segundo o Gaeco, a análise das movimentações financeiras e das mensagens trocadas revelou um esquema repugnante de oferecimento de vantagens ou chantagens para compras de livros, em troca de serviços de saúde como exames, cirurgias e até vagas de leitos em hospitais.

Gabriel Taquino negociava contratos da Editora Avante com prefeituras, enquanto Ed Carlo usava a estrutura da regulação estadual para facilitar ou restringir o acesso a serviços de saúde, conforme o andamento das negociações. Em uma das conversas obtidas após a quebra do sigilo telemático de Gabriel Taquino, os investigadores afirmam que um prefeito negociava a compra de livros enquanto buscava uma vaga de internação para um parente.

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Diálogos revelam troca de favores

Em trechos das mensagens, Ed Carlo diz: "Fala pra ele resolver tudo, que vc, saindo da sala, a vaga está garantida kkkkk." Gabriel Taquino responde: "Nós vamos alinhar. Eu sou parte interessada. Nós prometemos resolver a saúde dele." Ed Carlo ainda afirma: "Caso difícil esse, mas não impossível. Guri tá grave, hein. Mas vou resolver." Pouco depois, ele envia outra mensagem: "Amanhã cedo estará resolvido. Já falei com o pessoal de Nova Andradina, vão aceitar lá." Na sequência, acrescenta: "O duro é que esses caras não cumprem. Aí a gente queima muito cartucho à toa." Gabriel responde: "Ele vai pô. Ele é um cara de fio de bigode."

Outro diálogo citado na investigação trata das negociações com a Prefeitura de Nova Alvorada do Sul, em agosto de 2022. Diante da dificuldade para fechar o contrato, Ed Carlo sugeriu interromper o atendimento ao município: "Vou trancar tudo aqui." Na sequência, escreveu: "E não ajudo eles em nada. Amanhã tem reunião às 16 com o prefeito. Aí ele decide o que é melhor para a população dele. Saúde zero." Segundo os investigadores, a expressão "trancar tudo" indica a suspensão da oferta de serviços de regulação ao município.

Comemoração após fechamento de negócio

Depois, as mensagens mostram que os investigados comemoraram o fechamento da negociação. Ed Carlo: "Então Nova Alvorada sucumbiu??" Gabriel Taquino: "Gente nossa. Porque eles não tinham saída." Na sequência, Gabriel afirma que a negociação renderia R$ 80 mil para Ed Carlo. Depois, Ed Carlo escreve: "Vou dar 300 mil em exames pra eles. Fora as cirurgias. A escolha é deles."

Em outro trecho, os dois conversam sobre manter as negociações em sigilo. Gabriel Taquino: "Esse negócio nosso deve ser sigiloso. Porque tem muito invejoso externo." Ed Carlo: "Pra mim tem que ser. Ninguém pode saber. Tenho um cargo em jogo."

Exames e cirurgias como moeda de troca

Segundo o Gaeco, em 10 de agosto de 2022, Ed Carlo informou que havia marcado dez exames de ressonância para pacientes do município. Em seguida, enviou a Gabriel Taquino os nomes dos pacientes e os tipos de exame. A mensagem indica que as vantagens já eram oferecidas como parte do acordo investigado.

As mensagens também mostram que, quando as negociações não avançavam, os investigados discutiam restringir o atendimento ao município. Mensagem atribuída a Gabriel Taquino, em setembro de 2022: "Nova Alvorada não vai rodar. Sem orçamento. Deixa o povo sem leito lá. Suspende as cirurgias de Nova Alvorada. O cara não cumpriu." Quatro dias antes, segundo a investigação, Gabriel havia enviado outra mensagem: "Só opera se fechar. Senão vai morrer todo mundo."

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Pagamentos e vínculos com a Editora Avante

Durante a investigação, o Gaeco identificou pessoas que receberam pagamentos da Editora Avante sem vínculo formal com a empresa. Entre elas está Gabriel Taquino de Paula. Segundo o Ministério Público, Gabriel Taquino e o escritório de advocacia dele receberam mais de R$ 367 mil da editora entre 2022 e 2024, período analisado após a quebra do sigilo bancário.

Defesas e desdobramentos

O prefeito de Nova Alvorada do Sul, José Paulo Paleari, afirmou que o município não contratou a empresa investigada e que o secretário responsável pela negociação deixou a administração no início de 2023. A defesa de Ed Carlo Britto Burgatt e Gabriel Taquino de Paula informou que vai se manifestar no processo no momento oportuno, já que o Ministério Público ainda não apresentou denúncia. Sobre as mensagens, o advogado afirmou que "conversa não se mantém se não tiver prova" e disse que, segundo a defesa, essas provas não existem até o momento.

A Operação Gutenberg prendeu 15 pessoas. Jessyca Duarte Burgatt, filha de Ed Carlo, foi a única investigada a obter prisão domiciliar. Segundo a investigação, ela recebeu pagamentos da Editora Avante. Já Heyder Bartz, apontado como um dos líderes do grupo, continua foragido.