Registros de material de abuso sexual infantil crescem 25% no Brasil em 2025
Registros de abuso sexual infantil crescem 25% no Brasil em 2025

Os registros de produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil cresceram 25% no Brasil em 2025, segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em 23 de junho. Pela primeira vez, o estudo analisou esse tipo de crime, revelando dinâmicas próprias da violência ocorrida no meio digital.

Crescimento de 25% nos registros

Em 2025, foram registrados 4.063 casos envolvendo vítimas de até 17 anos, um aumento de 25,3% em relação a 2024, que teve 3.280 ocorrências. Entre jovens de 18 e 19 anos, os registros passaram de 181 para 265, um crescimento de 49%. O anuário destaca que a expansão das tecnologias digitais mudou as formas de socialização de crianças e adolescentes e as dinâmicas da violência sexual.

Segundo o relatório, modalidades como aliciamento, produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil passaram a ocupar lugar central entre os desafios contemporâneos da proteção integral de crianças e adolescentes. O enfrentamento desse fenômeno, na avaliação dos pesquisadores, exige uma compreensão mais ampla das transformações e a regulação das big techs.

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Adolescentes como autores em um terço dos casos

Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi que um terço das ocorrências envolve autores adolescentes. Em 34,2% dos casos, os autores são adolescentes. Em 86,5% dos registros, havia apenas autores do sexo masculino. Casos com apenas autoras representaram 9,1%, enquanto 4,4% dos casos envolveram autoria múltipla.

Para Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, os dados sobre a idade dos autores mostram uma característica específica: tanto vítimas quanto algozes são adolescentes. "A gente percebe que é uma violência entre pares", afirma o pesquisador.

O relatório aponta que o envolvimento de adolescentes está associado à ampliação do acesso às redes sociais, plataformas de mensagens e comunidades virtuais que difundem misoginia, sexualização precoce, discursos de dominação masculina e outras formas de radicalização online.

Perfil das vítimas e predomínio feminino

Quanto às vítimas, embora as ocorrências sejam registradas em todas as faixas etárias, a incidência cresce na entrada da adolescência. Segundo o estudo, 84,2% das vítimas são meninas e 78,3% têm entre 12 e 17 anos. A distribuição por faixa etária mostra: 9 a 11 anos: 13,9%; 12 e 13 anos: 26,8%; 14 e 15 anos: 30%; 16 e 17 anos: 21,5%.

Martins destaca que se trata de uma violência de gênero, relacionada à disseminação de discursos de ódio contra as mulheres, à sexualização precoce e a discursos de dominação masculina. "A gente está diante de uma violência de gênero", diz Martins.

Violência intrafamiliar também aumenta

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública também mostra aumento nos crimes cometidos dentro do ambiente familiar contra crianças e adolescentes. As ocorrências de maus-tratos, abandono de incapaz e abandono material praticamente dobraram desde 2021.

O crime de maus-tratos apresentou o avanço mais expressivo: foram 38.986 registros em 2025, alta de 14,6% em relação ao ano anterior e de 106,1% na comparação com 2021. Mais da metade das vítimas (59,1%) tinha entre 0 e 9 anos. O crescimento ocorreu em todas as faixas etárias: 0 a 4 anos: 16,3%; 5 a 9 anos: 14,9%; 10 a 13 anos: 10,9%; 14 a 17 anos: 17,2%.

Os registros de abandono de incapaz chegaram a 14.815, crescimento de 18,5% em relação a 2024. Já os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra vítimas de até 17 anos passaram de 20.911 para 21.811, alta de 5,5%. Entre jovens de 18 e 19 anos, houve queda, de 10.566 para 10.194 casos.

Para Martins, os dados refletem a permanência de uma cultura que usa a violência física como forma de disciplina, apesar dos avanços trazidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O relatório conclui que a demora na construção de mecanismos regulatórios permitiu a consolidação de espaços virtuais marcados pela difusão de violências persistentes contra crianças, adolescentes e mulheres.

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