Polícia prende suspeito de induzir herdeira ao suicídio no Rio
Polícia prende suspeito de induzir herdeira ao suicídio

A Polícia Civil prendeu preventivamente, na tarde de segunda-feira, Rafael Maia Cardoso, investigado por suspeita de induzir, instigar ou auxiliar ao suicídio de Sabine Coll Boghici, filha do marchand Jean Boghici. A prisão foi realizada por agentes da 9ª DP (Catete), no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, em cumprimento a um mandado expedido pela 1ª Vara Criminal da Comarca da Capital.

A prisão ocorre após a reabertura das investigações sobre a morte de Sabine, como mostrou o GLOBO em setembro do ano passado, depois que a mãe da vítima, Geneviève Boghici, contestou a conclusão inicial de suicídio e apontou indícios de que a filha teria sido induzida a tirar a própria vida.

Investigações apontam maus-tratos e violência

De acordo com a Polícia Civil, as investigações começaram após a morte de Sabine, em 14 de setembro de 2023, inicialmente registrada como hipótese de suicídio. No decorrer do inquérito, porém, foram reunidos depoimentos, registros audiovisuais e laudos periciais que, segundo a polícia, apontam indícios de que a herdeira era submetida de forma contínua a maus-tratos, agressões físicas, intenso sofrimento psicológico e restrição de liberdade.

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Esses elementos fundamentaram o indiciamento de Rafael e o pedido de prisão preventiva, posteriormente aceito pela Justiça.

Caso foi reaberto após contestação da mãe

A prisão é um novo desdobramento da investigação sobre a morte de Sabine Boghici, reaberta após a mãe da vítima, Geneviève Boghici, contestar a conclusão inicial de suicídio. Ela sustenta que a filha pode ter sido induzida ou instigada a tirar a própria vida.

Filha do marchand Jean Boghici, um dos maiores colecionadores e negociantes de arte do país, Sabine ganhou notoriedade ao ser presa, em 2022, ao lado da falsa vidente Rosa Stanesco Nicolau, condenada por integrar um esquema que aplicou um golpe milionário contra Geneviève. Segundo as investigações, o grupo convenceu a idosa de que seria necessário realizar trabalhos espirituais para salvar a vida da filha, obtendo dinheiro e obras de arte de artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Alberto Guignard. O prejuízo foi estimado em R$ 725 milhões.

Após deixar a prisão por meio de habeas corpus, Sabine passou a morar em um apartamento na Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa, com Catarina das Graças Stanesco, filha de Rosa; Rafael Maia Cardoso, companheiro de Catarina; e uma criança adotada pela vidente.

Relatos de violência e condições degradantes

Testemunhas ouvidas pela Polícia Civil afirmaram que, nos meses que antecederam a morte, Sabine vivia em condições degradantes e era vítima de violência constante dentro do apartamento. Moradores relataram que ouviam pedidos de socorro e gritos frequentes. Em uma das ocasiões, um vizinho chegou a gravar Sabine presa na varanda do imóvel enquanto ela implorava para que Catarina abrisse a porta.

Porteiros e vizinhos disseram que a Polícia Militar chegou a ser acionada diversas vezes, mas nunca conseguiu entrar no apartamento porque os ocupantes afirmavam que estava tudo bem. Segundo depoimentos, Sabine era vista com hematomas pelo corpo, roupas desgastadas e aparentava desorientação. Imagens das câmeras de segurança do prédio também mostrariam a herdeira circulando nessas condições.

Na véspera da morte, testemunhas afirmaram ter ouvido Sabine dizer que "não aguentava mais apanhar". Elas relataram ainda que ouviram Catarina responder: "Você vai apanhar até a minha mãe sair da cadeia". Outro depoimento aponta que uma diarista tentou impedir uma agressão e acabou sendo atacada. Segundo a testemunha, Catarina teria puxado Sabine pelos cabelos e esfregado seu rosto em fezes e urina dos cães que viviam no apartamento. Ainda conforme esse relato, em outra ocasião Sabine tentou se jogar pela janela, mas foi impedida por uma amiga e por Rafael Maia Cardoso.

Morte e novas investigações

Sabine caiu do quarto andar do prédio em 14 de setembro de 2023. Naquele momento, Catarina, Rafael e outro integrante da família já haviam deixado o apartamento havia menos de uma hora. Funcionários do condomínio encontraram a vítima ainda com vida e desorientada.

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O laudo pericial descreveu um apartamento desorganizado, com fezes espalhadas pelo chão e o quarto onde Sabine dormia em condições precárias. Também foi encontrada uma carta, atribuída à herdeira, direcionada a Rosa Stanesco.

Em maio de 2024, então responsável pelo caso na 15ª DP (Gávea) chegou a representar pela prisão de Catarina e Rafael pelos crimes de maus-tratos e cárcere privado. O pedido, no entanto, foi arquivado pelo Ministério Público à época.

Após pedido da defesa de Geneviève Boghici, a investigação foi reaberta e passou a apurar a possibilidade de induzimento e instigação ao suicídio qualificados pelo resultado morte. A mãe de Sabine também requereu a exumação do corpo para verificar a hipótese de envenenamento.