A Polícia Federal (PF) aprofundou a investigação sobre a estrutura que não apenas abastecia o ex-banqueiro Daniel Vorcaro com informações, mas também era usada para coagir e intimidar adversários e desafetos. A nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira, tem como alvo o publicitário Thiago Miranda, parceiro do dono do Banco Master. A partir do celular de Miranda, os investigadores pretendem rastrear o “time” responsável por investidas coordenadas contra jornalistas e o Banco Central.
Organização de alto grau de periculosidade
Em outras fases da apuração, a PF já havia colhido informações sobre a “Turma”, o “braço armado” do grupo de Vorcaro. Segundo a corporação, o “time” de Miranda tinha o mesmo “modo de agir” que a “milícia privada” do ex-dono do Master. A nova etapa da Compliance Zero mostra que o inquérito já conseguiu desenhar um quadro mais geral dos diferentes núcleos e braços do esquema de Vorcaro, agora qualificado como uma organização de alto “grau de periculosidade”, com “contornos de máfia”.
Nesse cenário, os investigadores buscam traçar paralelos e identificar ligações entre os grupos usados pelo ex-banqueiro para evitar que as fraudes do Master viessem à tona. A Procuradoria-Geral da República (PGR) viu indícios concretos de um grupo “capilarizado”, que contava com o apoio de “núcleos informacionais e de intimidação”.
Recrutamento de influenciadores e ataques ao Banco Central
Ao pedir a operação contra Miranda, a PF apontou que o publicitário estava diretamente envolvido no recrutamento de influenciadores, por meio de contratos pagos com recursos do esquema de fraudes do Master. Segundo a investigação, esta etapa apura indícios de uma atuação coordenada nas redes sociais para minar a credibilidade do Banco Central, que determinou a liquidação do Banco Master em novembro do ano passado. O objetivo era fazer críticas e ataques à atuação dos órgãos envolvidos nas investigações sobre o Master, tanto a apuração criminal como a liquidação do conglomerado alvo da Compliance Zero.
Ainda segundo a corporação, se os profissionais sondados por Miranda se recusassem a integrar o esquema, poderiam ser ameaçados com a divulgação de informações privadas e sigilosas, como dados financeiros. A PF também disse que não identificou vínculo “operacional” entre o “time” de Miranda e outros alvos do inquérito da Compliance Zero, como a “Turma” e “os meninos” — este último grupo formado por hackers.
Modus operandi comum
No entanto, os investigadores destacaram que todos os grupos usam o mesmo “modus operandi” da “organização criminosa” de Vorcaro, no sentido de “coagir, intimidar, violar a privacidade e dados sigilosos de jornalistas, pessoas ligadas a autoridades públicas e potenciais adversários e desafetos”. Fases anteriores da Compliance Zero mostraram que a “Turma” de Vorcaro, integrada por policiais aposentados e bicheiros, era responsável por ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos, obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas governamentais.
Já “Os Meninos” ficavam a cargo de ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico e telemático ilegal. A operação desta quinta-feira teve como objetivos identificar outros integrantes do “time” de Miranda que executaram levantamentos contra desafetos e ainda verificar a “real dimensão dos ilícitos”.
Atuação do 'time' de Miranda
Enquanto isso, o “time” de Miranda, segundo a PF, também operava via coação e ameaça, mas tinha atuação principal na “manipulação informacional”. Os investigadores mapearam ações de derrubada de conteúdos jornalísticos e perfis em redes sociais, inserção coordenada de comentários positivos, em favor dos negócios do Banco Master, elevação artificial de avaliações de aplicativos e negociações financeiras com veículos e profissionais para publicação de conteúdos favoráveis ou mitigação de reportagens negativas.
Também são citados ataques cibernéticos e outras medidas, como pressão via canais de autoridades ou sobrecarga coordenada, para retirar do ar links e publicações considerados prejudiciais ao grupo.



