Na noite da última terça-feira, uma perseguição policial na Avenida Brasil, principal via expressa do Rio de Janeiro, resultou na morte de cinco pessoas: quatro suspeitos e o cabo da Polícia Militar Fernando Plácido Roberto Rocha, de 38 anos. O confronto começou por volta das 22h30, em Guadalupe, quando equipes do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) tentaram abordar dois carros com um grupo que, segundo a corporação, se deslocava para realizar uma invasão a uma área dominada por uma facção rival. Os suspeitos não obedeceram à ordem de parada, e iniciou-se uma perseguição de 20 quilômetros, que terminou em Ramos com intensa troca de tiros.
O confronto e as vítimas
Durante a perseguição, agentes do BPVE pediram reforço e montaram um cerco com apoio do Batalhão de Choque, que integra a Operação Interceptação. O carro com seis bandidos bateu na mureta de um canteiro na altura de Ramos; os outros suspeitos, em outro veículo, conseguiram fugir. Na troca de tiros, os seis ocupantes do carro foram baleados: quatro morreram e dois ficaram feridos. O cabo Fernando Plácido Roberto Rocha foi atingido na cabeça e não resistiu. O agente Charles Batista dos Santos, de 45 anos, levou tiros no rosto e no ombro, passou por cirurgia e permanece em estado gravíssimo. O motorista Vitor Alberto Sá de Souza, de 47 anos, que passava pela região na altura da Penha, foi atingido por três disparos (um no ombro e dois no dorso) efetuados pelos criminosos durante a fuga.
Avenida Brasil: corredor da violência
O episódio expõe como a Avenida Brasil se consolidou como corredor estratégico para criminosos, expondo a população a confrontos armados. Levantamento do Instituto Fogo Cruzado aponta que, entre 1º de janeiro e 29 de julho de 2026, foram registrados 20 tiroteios no perímetro da via, nove deles durante operações policiais. Ao todo, 22 pessoas foram baleadas e 12 morreram, entre elas dois agentes de segurança mortos e dois feridos. Embora o total de ocorrências em 2026 seja menor que o do mesmo período de 2025 (29 tiroteios), a Avenida Brasil segue como a via expressa com maior concentração de episódios de violência na cidade.
Os confrontos impactam diretamente a rotina dos cariocas. Levantamento do EXTRA com base em alertas do Centro de Operações e Resiliência (COR) mostra que a via foi interditada pelo menos 17 vezes em 2026 por tiroteios ou violência. Os bloqueios ocorreram em trechos como Maré, Bonsucesso, Guadalupe, Penha, Benfica, Manguinhos, Costa Barros, Brás de Pina e no acesso à Vila Kennedy, provocando reflexos no trânsito em diversas regiões.
Déficit de efetivo no BPVE
Documentos internos obtidos pelo EXTRA revelam que o BPVE, responsável pelo patrulhamento das vias expressas da capital, enfrenta dificuldades para manter seu efetivo. A unidade opera com déficit de 301 policiais militares em relação ao quantitativo previsto. Outros documentos indicam que batalhões emprestam efetivo ao BPVE para driblar o déficit. Em nota, a Polícia Militar informou que a distribuição do efetivo é feita de forma técnica e estratégica, considerando indicadores de criminalidade e demandas operacionais. A corporação afirmou que unidades como o Batalhão Tático de Motociclistas (BTM) e o Rondas Especiais e Controle de Multidões (RECOM) atuam de forma integrada com os batalhões de área, ampliando a presença policial. A nota completa foi divulgada à imprensa.
Moradores da região convivem com o medo. Sentada em um ponto de ônibus na altura de Ramos, a autônoma Joselina Santos, de 60 anos, disse: “É uma insegurança geral, mas um dos meus maiores medos é estar sentada aqui e, de repente, me ver em meio ao fogo cruzado entre bandidos ou entre criminosos e a polícia. Isso aqui é cercado de comunidades; então, a qualquer momento, pode vir uma pessoa atirando de dentro do carro, como aconteceu na noite passada.”



