MP denuncia quatro acusados de plano do PCC para matar promotor e diretor
PCC: MP denuncia quatro por plano de matar promotor e diretor

O Ministério Público de São Paulo apresentou à Justiça uma denúncia de 82 páginas contra quatro homens acusados de integrar um plano do Primeiro Comando da Capital (PCC) para assassinar o promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o diretor regional da Coordenadoria Oeste dos Presídios (Croeste), Roberto Medina. A acusação, subscrita por seis promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), detalha um meticuloso trabalho de monitoramento das vítimas na região de Presidente Prudente, interior paulista.

Plano incluía levantamento minucioso das rotinas

Segundo a denúncia, os suspeitos Victor Hugo da Silva, vulgo 'VH' ou 'Falcão'; Wellison Rodrigo Bispo de Almeida, o 'Corinthinha' ou 'Maurício'; Sérgio Garcia da Silva, o 'Messi'; e Adilson Audinir Oliveira Júnior, o 'Ju Machado', empenharam-se desde junho de 2025 em coletar informações sobre a rotina de Gakiya e Medina. O objetivo era repassar os dados à 'Sintonia Restrita', instância do PCC responsável por executar 'cadáveres excelentes' — vítimas notórias da organização, como o ex-delegado-geral de Polícia Ruy Ferraz Fontes, assassinado em outubro de 2024 na Praia Grande.

O promotor Lincoln Gakiya é conhecido por sua atuação contra o crime organizado, especialmente por ter sido alvo de planos de fuga e atentados anteriores. Roberto Medina, diretor da Croeste, também é figura central na administração penitenciária do estado. A denúncia aponta que o monitoramento incluiu registros de placas veiculares, mapeamento de rotas, avaliação de sistemas de vigilância, e até mesmo a captação de imagens e áudios.

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Prisão preventiva e RDD solicitados

O Ministério Público requereu a prisão preventiva de Victor Hugo e Adilson Audinir, que estão foragidos, alertando que, em liberdade, eles poderiam dar 'plena continuidade no levantamento dos hábitos de seus alvos e fornecimento das informações à Sintonia Restrita para que sejam efetivados os atentados contra a vida de agentes públicos'. Os promotores pedem ainda que o grupo seja submetido ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). 'Evidente a necessidade de se resguardar a ordem pública', afirmam.

Estrutura do PCC e risco às autoridades

Na denúncia, a força-tarefa do Gaeco destaca que o PCC é a maior organização criminosa do Brasil, com cerca de 40 mil integrantes no país e presença em mais de 28 países. 'Sua estrutura demonstra claramente o alto número de pessoas que integram tal facção criminosa e que, além disso, ela é ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas', escrevem os promotores. Eles explicam que, com a reunião dos líderes no mesmo estabelecimento prisional, Marcos Willian Herbas Camacho, o 'Marcola', solidificou seu prestígio, designando homens de confiança para compor a 'Sintonia Final Geral'.

O promotor Lincoln Gakiya e o diretor Roberto Medina são vistos como obstáculos ao poder do PCC. 'A organização criminosa, dessa forma, pretende imprimir sua hegemonia e poderio em detrimento do Estado, o que não deve ser consentido', advertem os promotores.

Investigações revelaram comunicação coordenada

A análise de dados telemáticos dos celulares de 'VH' e 'Corinthinha' evidenciou vínculos operacionais e comunicação consistente. 'Messi' atuou como executor de levantamentos em Presidente Prudente, especialmente da rotina de Lincoln Gakiya. Com ele, policiais militares do 8º Batalhão de Ações Especiais encontraram roteiros que coincidiam com os trajetos recorrentes do promotor e de seus familiares. 'Os mapas retratam locais que podem ser usados como pontos de observação para ataque dirigido à referida autoridade pública', diz a denúncia.

Foram apreendidos prints de mapas de georreferenciamento indicando localizações precisas, como a sede do Ministério Público em Presidente Prudente. Também foram coletados vídeos e áudios do celular de 'Messi' mostrando negociação de fuzis, transações em espécie e tráfico de drogas. 'Tais atividades são típicas do Primeiro Comando da Capital e a relação com o armamento reforça a elaboração do plano de atentado', apontam os promotores.

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Suspeito usou cachorro como disfarce

Em 26 de junho de 2025, Victor Hugo usou um cachorro na calçada para justificar sua permanência nas proximidades do endereço de Medina. Perguntou a um vizinho se o animal estava perdido, dissimulando o real motivo de sua presença. Um áudio transcrito nos autos mostra a preocupação em não ser identificado por câmeras de segurança. 'VH' também enviou vídeo de um trajeto de motocicleta da Penitenciária I de Presidente Venceslau até a casa de Medina, narrando referências visuais e nomes de vias.

O monitoramento incluiu ainda a mulher de Roberto Medina: um dos faccionados compareceu ao Poupatempo onde ela trabalha, fez filmagens e pesquisou o carro por ela utilizado. Imagens de placas de veículos estacionados em frente ao imóvel de Medina também foram registradas.

Ponto de partida: abordagem policial e apreensão de drogas

A investigação começou em 28 de julho de 2025, quando policiais militares abordaram Victor Hugo em atitude suspeita. Com ele, encontraram 9,08 gramas de crack, um celular Xiaomi e R$ 9,30. Em diligência posterior, apreenderam 234 pedras de crack, cocaína e material para fracionamento, além de R$ 50. 'VH' foi autuado por tráfico de drogas. A quebra de sigilo do celular revelou sua vinculação com o PCC e participação em ações de inteligência voltadas ao atentado contra Medina.

Os promotores concluem que o levantamento integra 'um cenário mais amplo de atuação organizada, que representa fator de risco à integridade funcional e pessoal das vítimas, bem como instrumento de pressão sobre a administração penitenciária'. O caso agora aguarda decisão judicial.