Motos no Rio: como conviver com a nova realidade?
Motos no Rio: como conviver com a nova realidade?

O Rio de Janeiro enfrenta uma nova realidade no trânsito: as motos se multiplicaram, ocupando espaços deixados pelo transporte público e criando novas formas de trabalho, mas também elevando os acidentes a níveis alarmantes. A Secretaria Estadual de Saúde registra, em média, uma morte de motociclista por dia. Entre janeiro e junho deste ano, foram 257 óbitos e milhares de feridos.

O impacto humano e social

Bruno, de 24 anos, pilota motos desde os 13. Após sofrer vários acidentes, o último mudou sua vida: há seis meses, teve uma perna amputada. Pai de dois filhos, ele pediu aposentadoria por invalidez e deixou o mercado de trabalho no início da vida produtiva. "Agora, para trabalhar, esse é o problema", lamenta.

O pesquisador Erivelton Guedes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), alerta que o impacto vai além das estatísticas: para cada motociclista morto, há cerca de 112 atendimentos hospitalares. Um terço das vítimas fica com sequelas graves, muitas dependendo da Previdência Social. "Vai ter um custo social muito grande, acumulado ao longo dos anos", afirma.

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Iniciativas legislativas em andamento

O crescimento das motos é nacional e chegou ao Congresso. Um projeto de lei complementar em tramitação propõe um marco legal para o trabalho de motociclistas por aplicativo, incluindo remuneração mínima, proteção previdenciária e transparência das plataformas. Na Câmara Municipal do Rio, outro projeto regulamenta o transporte de passageiros por moto via aplicativos, impulsionado pela morte da publicitária Alexia Nunes, de 27 anos, em novembro.

A jornalista Maria Luisa de Melo, irmã de Rafael Pereira, morto em janeiro em acidente na Linha Amarela, defende que a discussão não se limite aos condutores: "O trabalhador também está morrendo. O passageiro está morrendo. É preciso fiscalização."

Papel das plataformas e infraestrutura

Especialistas cobram participação ativa das empresas de aplicativo na prevenção. A professora Marina Baltar, da Coppe/UFRJ, afirma que as plataformas têm dados para ajudar o poder público a identificar pontos críticos e orientar políticas de segurança, além de defender treinamento contínuo para motociclistas.

A Prefeitura do Rio diz manter parceria com plataformas para punir entregadores que desrespeitam regras, mas reconhece que é preciso avaliar a efetividade. Outra aposta é a expansão das motofaixas: o município iniciou a implantação em 2024 e pretende chegar a 75 quilômetros até o fim do ano, mas apenas 11% foram entregues. Novos trechos estão sendo criados no Leblon e na Lagoa.

Especialistas alertam que motofaixas sozinhas não resolvem o problema e podem até estimular velocidades maiores sem fiscalização adequada.

Educação e transporte público

O tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros, destaca que experiências internacionais mostram a necessidade de três pilares: identificar pontos críticos, melhorar a infraestrutura e investir em educação. "Não há caminho fora da educação."

Já a professora Marina Baltar avalia que nenhuma medida terá efeito duradouro sem melhorar o transporte público. Pesquisa da Coppe com mais de 2 mil motociclistas aponta que o principal motivo para escolher a moto é o tempo. Mesmo com insegurança, a maioria continua usando a moto por chegar mais rápido. "O transporte público precisa oferecer um tempo competitivo", conclui.

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