Morreu nesta segunda-feira (27) a menina Sophia Luisa Moraes dos Santos, de 3 anos, moradora de Campo Bom, na Região Metropolitana de Porto Alegre, que teve a imagem usada em falsas campanhas de arrecadação online. Os criminosos usaram inteligência artificial (IA) para forjar vídeos em que a menina, em tratamento contra o câncer, estaria pedindo dinheiro para pagar medicamentos.
A morte de Sophia
Segundo a mãe, Kelen Santos, Sophia foi internada no fim da tarde de domingo (26), na Santa Casa de Porto Alegre, e faleceu na madrugada desta segunda-feira. "Ela estava com problema no coração por causa das radio[terapias]." A menina também estava com uma infecção no pulmão. "O câncer passa, mas ficam as consequências, né? E daí ela estava cuidando disso, mas eles tiveram de entubar hoje (segunda) porque ela estava com esforço respiratório e ela teve uma parada [cardiorrespiratória] e não aguentou", relata a mãe. A despedida ocorrerá no Cemitério Jardim da Memória, em Novo Hamburgo. O horário não havia sido definido até a última atualização desta reportagem.
O golpe com IA
Em entrevista recente à RBS TV, Kelen havia falado sobre o golpe. "Eu chorei muito porque não era só questão da imagem dela. Mas eles estarem usando a nossa dor para se aproveitar, para ganhar dinheiro e principalmente pelas pessoas que estavam doando", afirmou. Nos anúncios falsos, uma voz gerada por IA simulava a criança fazendo apelos emocionais aos doadores. "O remédio que pode me ajudar é muito caro. E a mamãe disse que a gente já vendeu tudo. Se você puder ajudar, qualquer valor já me dá mais um dia com a minha mãe. Se você puder me ajudar, clica no botãozinho aqui embaixo", dizia a mensagem falsa. Segundo o delegado João Vitor Herédia, da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos (DRCPE), o grupo utilizava ferramentas de inteligência artificial, deepfake e clonagem de voz para alterar campanhas verdadeiras. As publicações eram feitas por páginas falsas com nomes como "Clube de Doadores" e "Unidos pelo Amor". Deepfake é uma técnica que permite alterar um vídeo ou foto com ajuda de inteligência artificial (IA).
Investigação e prisões
Ao clicar nos anúncios, as vítimas eram direcionadas para sites que imitavam plataformas legítimas de arrecadação. Nessas páginas, era gerado um código Pix, e o dinheiro caía em contas de empresas de fachada controladas pelos criminosos. Kelen explicou que doadores procuravam a família nas redes sociais para comemorar a contribuição, sem saber que o dinheiro havia sido desviado. "A pessoa dizia 'eu doei', feliz da vida que tinha contribuído para o tratamento dela. E daí a gente acabava dizendo para a pessoa 'não, a gente não tem nenhuma vaquinha, você acabou doando para um golpe'." Apenas na campanha falsa envolvendo a imagem da menina, a polícia rastreou R$ 294,5 mil desviados. A investigação também identificou uma empresa que funcionava como núcleo financeiro do grupo e que movimentou mais de R$ 1,7 milhão no período apurado. Apesar do uso indevido da imagem, a criança alvo dos criminosos teve uma campanha de arrecadação legítima no passado. A vaquinha verdadeira foi encerrada pela família após o valor necessário ser atingido. O tratamento foi realizado e a menina apresenta melhora no quadro de saúde.
A polícia ainda não sabe quantas crianças com doenças graves foram usadas pelo grupo para enganar doadores em todo o país. O caso é investigado pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que deflagrou uma operação em cinco estados no último dia 14. Os suspeitos criavam páginas falsas para desviar os valores e devem responder por estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. 16 pessoas foram presas. As ordens judiciais foram executadas no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco. A operação aconteceu nas cidades de Passo Fundo (RS), Dourados (MS), Vitória de Santo Antão (PE), Francisco Beltrão e Cruzeiro do Iguaçu (PR), Piracicaba, São Paulo, São Vicente, Catanduva, Santana de Parnaíba e Sorocaba (SP).
Orientações da polícia
A Polícia Civil orienta que a população verifique a veracidade de campanhas de arrecadação antes de transferir valores. A recomendação é confirmar os dados diretamente com a família ou instituição e checar se o nome do destinatário do Pix corresponde ao beneficiário real. A morte de Sophia reacende o alerta sobre os perigos dos golpes que exploram a boa-fé alheia e a fragilidade de pacientes em tratamento.



