Lei Seca completa 18 anos com queda de mortes, mas alerta para aumento recente
Lei Seca 18 anos: mortes caem, mas alerta para avanço recente

Há 18 anos, a Lei 11.705 alterou o Código de Trânsito Brasileiro para tornar gravíssima a infração de dirigir sob efeito de qualquer teor de álcool, prevendo a suspensão da habilitação por 12 meses e uma multa que, após atualizações, hoje supera R$ 2.900. Quatro anos depois, a Lei 12.760 fechou uma brecha relevante, permitindo o uso de sinais de embriaguez, testemunhos e gravações como prova, de modo que quem se recusasse ao bafômetro não escapasse impune. Juntas, essas duas leis não apenas endureceram a punição, mas mudaram hábitos: o motorista da rodada, o aplicativo chamado no fim da festa, o planejamento de quem vai dirigir antes da primeira garrafa são herança direta da Lei Seca.

Queda histórica nas mortes, mas alerta para reversão

O efeito é visível nos números. De acordo com o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), entre 2010 e 2024 as mortes no trânsito associadas ao álcool caíram 12,8% em valores absolutos. Quando ajustada ao crescimento populacional, a queda na taxa a cada 100 mil habitantes é ainda mais expressiva: 19,5%. Esses números confirmam que regras claras, fiscalização presente e reprovação social mudam o comportamento ao volante – e comportamento, no trânsito, é sinônimo de vida ou morte.

No entanto, a melhora não foi linear. O ponto mais baixo da série foi registrado em 2019, quando a taxa nacional recuou para 5,4 mortes por 100 mil habitantes, o equivalente a 11.261 vidas perdidas. A partir do ano seguinte, a curva inverteu e não parou mais de subir. Em 2024, o Brasil voltou a computar 6,2 mortes por 100 mil habitantes em acidentes com álcool – o pior patamar desde 2016, quando o índice era 6,4. Em poucos anos, o país devolveu boa parte do terreno conquistado em uma década.

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O papel das motocicletas no aumento recente

Parte da explicação está sobre duas rodas. Desde 2019, a frota nacional de motocicletas saltou de 23,6 milhões para 28,3 milhões, alta de 20% – bem acima dos 12% de crescimento da frota de automóveis, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito. As motos baratearam a mobilidade urbana e se tornaram ferramenta de trabalho para um exército de entregadores que cresceu com os aplicativos de delivery. Mas elas são também o elo mais frágil do trânsito: oferecem pouca proteção numa colisão, sobretudo contra motoristas embriagados, cuja percepção de distância e tempo de reação já estão comprometidos.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que motociclistas respondem por 40% de todas as mortes no trânsito brasileiro, uma fração desproporcional ao tamanho da frota. Esse dado reforça a necessidade de políticas específicas para esse grupo, que hoje é o mais vulnerável e também o que mais cresce nas vias do país.

Perfil das vítimas: homens jovens e motociclistas

Os dados do Cisa revelam ainda um recorte cultural e de gênero. A violência no trânsito ligada ao álcool no Brasil tem rosto predominantemente masculino: homens representam 86,7% das vítimas fatais e 81,8% das hospitalizações. Esse comportamento de maior exposição ao risco não apenas destrói milhares de famílias todos os anos, mas gera um impacto imenso no Sistema Único de Saúde, sobrecarregando emergências e exigindo custos elevados com internações e reabilitação.

É aqui que a Lei Seca, sozinha, encontra seu limite. Nenhuma legislação sustenta uma queda permanente de mortes apenas existindo no papel; precisa de fiscalização confiável e bem distribuída – não apenas blitze aleatórias, mas operações orientadas por dados, capazes de antecipar onde o risco é maior. Precisa de planejamento estratégico que cruze informações de saúde, trânsito e segurança pública, em vez de reagir a tragédias já consumadas. Precisa de atendimento de emergência ágil, pois entre uma vítima que sobrevive e outra que não, a diferença se mede em minutos.

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Fiscalização e prevenção: os próximos passos

Além disso, é fundamental investir em prevenção direcionada: campanhas que falem com homens jovens e motociclistas, e não mensagens genéricas que a sociedade já aprendeu a ignorar. O trânsito brasileiro de hoje, com mais motos, mais entregadores e vias mais disputadas, não é o mesmo de 2008. Se a Lei Seca quiser continuar sendo um instrumento ativo de proteção, e não o eco de um tempo em que funcionava melhor, o Brasil terá de fazer por ela o que se espera de qualquer jovem adulto: continuar aprendendo e assumindo, a cada ano, responsabilidades novas.