Interiorização da violência: cidades menores lideram taxas de homicídio em MG
Interiorização da violência em MG: cidades menores lideram

O Brasil registrou o menor número de homicídios da série histórica, mas um novo fenômeno preocupa: a interiorização da violência. Cidades de médio e pequeno porte em Minas Gerais passaram a concentrar as maiores taxas de homicídio, refletindo uma tendência nacional que se intensifica nos últimos anos. Na Zona da Mata, por exemplo, Ubá e Barbacena lideram o ranking proporcional de homicídios, mesmo com populações menores que Juiz de Fora.

Os dados fazem parte do Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O estudo reforça que o crime está se deslocando das capitais para o interior, um movimento que não é recente, mas ganhou força nos últimos anos.

Interiorização do crime é tendência nacional

Em entrevista ao g1, o coordenador do Atlas da Violência, Daniel Cerqueira, explicou que esse deslocamento não é recente, mas ganhou força nos últimos anos. “O que a gente percebe é um processo de interiorização do crime para as cidades pequenas. Esse é um processo que não começa agora, já vem de vários anos”, afirmou Cerqueira. Segundo ele, o fenômeno ocorre em diferentes regiões, incluindo o Sudeste, e não se limita a Minas Gerais.

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Ao mesmo tempo, há um movimento contraditório: a concentração de violência em algumas cidades maiores, especialmente no Norte e Nordeste. “O que a gente observou nesse último dado de 2025, paradoxalmente, foi uma concentração de crime em algumas cidades. Então, ao mesmo tempo que está havendo essa interiorização do crime para cidades pequenas, tem muitas cidades relativamente grandes lá no Norte e Nordeste que estão concentrando muito crime. E isso tem a ver com guerra de facções, de pequenas facções, de narcotraficantes, que estabelecem contendas pelo domínio territorial ali do ponto de venda de drogas”, destacou.

Facções e disputa por território impulsionam avanço

A expansão da violência para o interior está diretamente ligada à proliferação de facções criminosas no país, especialmente a partir da década de 2010, de acordo com Cerqueira. Conforme ele, o Brasil saiu de um cenário com poucas grandes organizações para um ambiente fragmentado: mais de 80 facções espalhadas pelo país, muitas delas grupos locais menores que disputam pontos de tráfico. Essas disputas elevam os índices de violência, especialmente em cidades menores.

“A gente tinha basicamente duas grandes facções no Brasil. A partir de 2010, houve uma corrida geopolítica e econômica entre essas duas facções para arregimentar membros. E o que acontece é que esse processo gerou uma espécie de vitrine, que fez com que muitas outras facções locais fossem criadas”, explicou Cerqueira. Além do tráfico de drogas, essas organizações passaram a atuar em outras atividades, como transporte irregular, cobrança de taxas e “segurança”, garimpo ilegal e grilagem de terras, e serviços clandestinos como “gatonet”.

“No Amazonas, por exemplo, a gente vê situações do crime que se instalou nessas cidades pequenas, também operando grilagem e garimpo ilegal de ouro. Então, houve uma espécie de uma diversificação do crime e também uma proliferação, não só das grandes, mas de pequenas facções”, completou.

Cidades menores mais vulneráveis

A interiorização da violência ajuda a explicar por que municípios menores apresentam taxas proporcionais mais altas de homicídio, mesmo com números absolutos menores. Esse padrão evidencia que o risco relativo pode ser maior fora dos grandes centros urbanos. No levantamento da Zona da Mata, os dados são reveladores: Ubá registrou 37 homicídios, sendo 7 ocultos, com taxa de 34,5 homicídios a cada 100 mil habitantes; Barbacena teve 16 homicídios, sendo 3 ocultos, taxa de 12,3; Juiz de Fora, 49 homicídios, 1 oculto, taxa de 8,7; e Muriaé, 9 homicídios, 1 oculto, taxa de 8,3.

“Tem esse problema das pequenas facções formadas por jovens. E a forma que eles têm de se firmar no mundo do crime é com o uso da violência”, afirmou Cerqueira.

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Queda nacional de homicídios convive com avanço do crime no interior

Apesar da interiorização, o Brasil vive um momento de redução histórica dos homicídios, segundo o Atlas. “A gente atingiu a menor taxa de homicídio desde 1998”, destacou Cerqueira. Ele aponta três fatores principais para essa queda: o envelhecimento da população, já que jovens são mais expostos à violência e o processo é mais avançado no Sudeste e Sul; a melhoria nas políticas públicas, com uso de dados e inteligência policial, integração entre forças de segurança e planejamento de curto, médio e longo prazo; e a mudança no comportamento das facções, com crime mais “profissionalizado”, menor uso de violência ostensiva e foco em lucro e operações sofisticadas.

“Não basta simplesmente botar polícia na rua. É preciso trabalhar com dados”, afirmou Cerqueira.

O que esperar para os próximos anos

Mesmo com a expansão do crime para o interior, a expectativa é de continuidade na queda dos homicídios no Brasil. No entanto, o cenário exige atenção: a interiorização pode espalhar o problema e dificultar o combate; pequenas facções, especialmente formadas por jovens, tendem a ser mais violentas; e a presença do crime organizado pode se diversificar ainda mais.

“O crime voltado para o lucro, o crime S.A., em que a guerra, a violência, ela é um custo econômico para essas facções, ela chama a atenção das polícias. Então, eu acho que está havendo também um processo de uma mudança na governança criminal de várias facções. E isso faz com que menos crimes violentos aconteçam e eles passem para crimes mais sofisticados, inclusive entrando no mercado legal e com todo esse processo de lavagem de dinheiro. Essa é a tendência”, concluiu Cerqueira.