Planejamento sucessório: herdeiros e a transferência de US$ 83 trilhões
Transferência de US$ 83 trilhões: como herdeiros se preparam

O mundo enfrentará a maior transferência de riqueza já registrada, com trilhões de dólares mudando de mãos. Family offices e bancos enxergam nesse movimento uma oportunidade estratégica e já preparam programas de educação financeira e mentoria para herdeiros. As iniciativas vão desde a inserção de jovens na mesa de negociações familiares até a criação de comunidades globais de networking.

US$ 83 trilhões em movimento global

Segundo cálculos do UBS, nos próximos 20 a 25 anos, mais de US$ 83 trilhões serão transferidos globalmente. Desse total, cerca de US$ 9 trilhões devem ser repassados horizontalmente – entre cônjuges – e US$ 74 trilhões verticalmente, entre gerações. O Brasil terá participação relevante: o UBS projeta US$ 9 trilhões transmitidos no país, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (US$ 29 trilhões) e à frente da China continental (mais de US$ 5,6 trilhões).

Yuri Freitas, head de wealth planning do UBS Brasil, destaca que os futuros herdeiros têm perfil diferente de seus pais ou avós. “As novas gerações buscam na instituição financeira um lugar de troca de experiências com os semelhantes. Os jovens esperam que o banco crie esse tipo de oportunidade”, afirma. Eles são mais abertos ao mercado internacional, valorizam critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) e demonstram interesse em filantropia.

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Preparação no Brasil ainda é incipiente

Thiago de Castro, CEO da TAG, avalia que o Brasil ainda “engatinha” no planejamento para transferência de riqueza entre gerações. “Esse foi um tema que entrou em destaque nos últimos anos no País sob o ponto de vista de economia tributária, mas não com uma visão de sucessão. Acho que esse é o foco que deveria crescer”, diz. Para Leonardo Finelli, head de wealth management da EQI Investimentos, as instituições que não acompanharem as novas gerações correm o risco de perder recursos sob gestão. “Isso gera um alerta para quem já está com esse dinheiro e uma oportunidade para quem ainda não administra esse patrimônio”, afirma.

Geração Z mostra interesse pelo legado

Um estudo da Mardô Family House Integration revelou que 55% dos entrevistados da geração Z ancoram seus projetos futuros na empresa ou no patrimônio da família. Eles demonstram desejo de suceder os pais, profissionalizar a gestão ou conduzir novos caminhos para o legado. Marcia Dolores, fundadora da Mardô, explica que a sucessão não é apenas financeira. “É necessário dar um passo anterior para se construir um alinhamento de consciência”, diz. A casa analisa o “DNA de cada família” e classifica os potenciais de cada herdeiro, mostrando que contribuir não significa necessariamente assumir um cargo executivo.

Programas de family offices e bancos

Os family offices têm investido em programas de orientação. A TAG, em parceria com bancos e gestoras, desenvolve formações de longo prazo para herdeiros. Em algumas famílias, os jovens administram uma pequena parcela de recursos como desafio entre parentes. A Alocc oferece cursos de educação financeira para faixas etárias de 9 a 21 anos. Sigrid Guimarães, CEO da Alocc, ressalta: “As novas gerações devem entender que as famílias se multiplicam e hoje há uma maior longevidade, então uma decisão errada pode pôr fim mesmo a um patrimônio alto”.

A Tera Capital trabalha com diagnóstico que vai além do patrimônio, mapeando o estágio do planejamento sucessório e da governança familiar. Para herdeiros de 20 a 30 anos, oferece mentoria profissional e curso de finanças. A casa lançará em breve uma ferramenta para medir o grau de preparação das famílias. Ana Rizzo, sócia da Tera, explica: “Ela poderá dar uma nota, mostrando se a família está com um nível baixo de preparação ou excelente”. Fábio Vidigal, CEO, afirma que a missão é garantir a preservação do patrimônio ao longo das gerações.

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Os bancos também atuam fortemente. O UBS Brasil promove encontros personalizados para sucessores e o programa Global Rising Investors, que reúne jovens de diversos países em Zurique. O Bradesco Global Private Bank criou o New Gen Hub, com iniciativas como New Gen Talks e New Gen International. Leandro Karam, diretor do Bradesco Global Private Bank, destaca: “Nesse processo, trouxemos as novas gerações não apenas para participar, mas também para liderar essa frente”.