Família de vítima de feminicídio relata agressões e ameaças em Santarém
Família de vítima de feminicídio relata agressões

A família de Tainá Yarina dos Santos Cardoso, de 29 anos, vítima de feminicídio em Santarém, no oeste do Pará, revelou nesta quarta-feira (22) um histórico de agressões e ameaças que teriam sido praticadas pelo namorado, o advogado Wlandre Gomes Leal, preso em flagrante no domingo (19). Em entrevista à TV Tapajós, parentes contaram que Tainá nunca denunciou os episódios de violência por medo de represálias contra ela, a mãe ou a filha.

Mãe diz que relacionamento era 'só aparência'

A mãe de Tainá, Sheila Batista dos Santos, afirmou que inicialmente acreditava que a filha vivia uma relação tranquila. "No meu ver de mãe, era um relacionamento tranquilo. Pelo menos era isso que ele apresentava para mim, a forma como tratava minha filha quando estava na minha frente. Mas depois eu descobri que era só aparência. Lá dentro de casa ela estava sendo maltratada", declarou.

Sheila contou que, após a morte de Tainá, soube de agressões físicas, ameaças e episódios de violência que a filha nunca havia compartilhado. "Depois eu soube que ele trancava ela no apartamento, arrastava ela dentro do carro e batia nela. A gente não sabia de nada porque ela não contava. Ele dizia que, se ela falasse, faria alguma coisa comigo ou com a filha dela", relatou.

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Hematomas e roupas de manga comprida

A mãe também revelou que chegou a perceber hematomas no corpo da filha, mas acreditou nas justificativas de Tainá. "Como ela era muito branca, eu perguntava: 'Tainá, o que é isso?'. E ela respondia: 'Mãe, eu sou branca, qualquer coisa fica roxo'. Mas eram hematomas grandes. Hoje eu vejo que eram marcas das agressões", disse.

Outro detalhe que passou a fazer sentido para a família foi a forma como Tainá se vestia. "Ela vinha sempre de blusa de manga comprida, mesmo naquele calor. Eu nunca imaginei que era para esconder as marcas. Só fui entender depois que perdi minha filha", contou Sheila.

Relacionamento começou quando advogado atuava em processo da vítima

Segundo a mãe, Tainá conheceu Wlandre Gomes Leal quando procurava um advogado para conduzir o processo de separação do pai de seu filho. Sheila afirmou que acompanhou a filha na contratação do profissional e que, depois disso, ele passou a insistir em contatos fora do ambiente profissional. "Nós fomos até o escritório dele porque ela precisava entrar na Justiça por causa da criança. Depois disso, ele começou a ligar para ela uma, duas, três horas da manhã. Ela chegou a me dizer: 'Mãe, acho esse homem meio carente comigo, porque ele vive me ligando'", relembrou.

A mãe afirma que o ex-companheiro de Tainá chegou a conversar com o advogado. "Ele pediu para que não se aproveitasse daquele momento porque ela era cliente dele e ainda existia a possibilidade de eles reatarem o relacionamento. Mas ele continuou insistindo", disse. Para Sheila, o advogado se aproveitou da vulnerabilidade emocional da filha. "Ele se aproveitou da fragilidade da minha filha. Não deu mais paz para ela nem para nossa família", afirmou.

Comportamento agressivo e violência patrimonial

Sheila contou que nunca conseguiu confiar no namorado da filha. "Eu falava para uma amiga que não confiava nele. Ele tinha um jeito muito agressivo. Minha filha achava que eu não gostava dele, mas não era isso. Eu tinha medo dele", disse. Segundo ela, o advogado costumava chegar na casa da família gritando e, algumas vezes, chegou a quebrar portas da residência. "Ele veio aqui e quebrou a porta da minha casa para entrar. Em outra ocasião, quis mandar dentro da minha casa. Eu precisei mandar ele se acalmar", afirmou.

A mãe disse ainda ter ouvido relatos de que o investigado já teria apresentado comportamento violento em relacionamentos anteriores. "Fiquei sabendo que a ex-mulher dele também sofreu violência. Não sei detalhes do processo, mas ouvi dizer que ele já tinha medida protetiva contra ele", declarou. Além da violência física, a família também relatou violência patrimonial: o suspeito teria estourado o cartão de Tainá e quebrado o celular dela.

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Família nega versão de tentativa de suicídio

Durante entrevista após ser preso, o advogado afirmou que Tainá teria tentado tirar a própria vida anteriormente. A família nega categoricamente essa versão. "Isso não é verdade. Ela teve um relacionamento anterior, que terminou normalmente. Ela voltou para a casa da mãe e seguiu a vida dela. Nunca houve essa história de tentativa de suicídio", afirmou a tia da vítima, Joysse Farias dos Santos.

Família teme esquecimento e cobra justiça

A família afirma confiar no trabalho da Polícia Civil, mas teme que o caso seja esquecido. Joysse contou que, durante manifestação na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), a delegada Márcia Rabelo informou que novas testemunhas serão ouvidas durante o prazo da prisão temporária de 30 dias. "A gente não quer que isso caia no esquecimento. Hoje todo mundo fala, mas daqui a um tempo as pessoas esquecem. Nós não vamos esquecer. Ela não vai ser mais um número nas estatísticas de feminicídio", afirmou. Ela também disse esperar que o investigado permaneça preso. "Eu não quero vingança. Eu quero justiça. Quero que ele responda pelo que fez e sinta as consequências dos atos dele. Porque, se sair, pode fazer isso novamente com outra mulher", disse.

Investigação segue como feminicídio

A Polícia Civil segue investigando o caso como feminicídio. Segundo o delegado Kleidson Castro, inconsistências na versão apresentada pelo suspeito, a natureza do ferimento encontrado em Tainá, o estado do sangue no apartamento e o tempo decorrido até o acionamento do socorro reforçaram a suspeita de homicídio. A investigação também apura possíveis episódios anteriores de violência doméstica envolvendo o casal. Imagens de câmeras de segurança, laudos periciais, análises da arma utilizada e depoimentos de testemunhas serão fundamentais para a conclusão do inquérito. A defesa de Wlandre Gomes Leal informou que irá se manifestar somente após analisar os desdobramentos da investigação. Até o momento, o caso segue sendo tratado pela Polícia Civil como feminicídio.