Doleira da Lava Jato recebia R$ 70 mil mensais do PCC, aponta Gaeco
Doleira da Lava Jato recebia R$ 70 mil do PCC mensalmente

A Operação Janus, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) nesta terça-feira (21), revelou que a contadora Meire Bonfim da Silva Poza, conhecida como doleira da Lava Jato, recebia R$ 70 mil mensais do Primeiro Comando da Capital (PCC) para manter a estrutura contábil do braço financeiro da facção. Meire é alvo de mandado de prisão preventiva. Ela já havia sido presa em abril de 2018, na Operação Encilhamento, por suspeita de envolvimento em esquema bilionário de desvios da Previdência.

Relação com o PCC e a Lava Jato

Meire Poza foi investigada na Operação Lava Jato, então sob condução do ex-juiz Sérgio Moro, hoje senador. Ela mantinha relações próximas com o doleiro Alberto Youssef, que firmou acordo de delação premiada em 2014 com a força-tarefa que desmontou um esquema de corrupção e cartel de empreiteiras na Petrobrás. Agora, segundo a investigação, Meire emprestava seus conhecimentos contábeis para manter a engrenagem financeira da cúpula do PCC e fazia parte da rede de doleiros a serviço da facção havia pelo menos cinco anos.

Os promotores resgataram troca de mensagens entre Meire e Cléber Azevedo dos Santos, apontado como operador do braço financeiro da organização criminosa. O Relatório de Inteligência 24/26 mostra a relação entre o grupo investigado na Operação Bazaar e Alexandre Salles Brito, o "Buiu", réu na Operação Fim da Linha, que cooptou a empresa UpBus, com atuação notória no PCC. Para o Ministério Público, a aproximação do grupo com o PCC ocorreu pela participação de Meire na prestação de serviços contábeis em favor da organização criminosa, reforçando a integração operacional entre os agentes envolvidos.

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Evidências das mensagens

A ligação de Meire com o PCC fica evidente por meio de mensagens enviadas por ela a Cléber. Em 26 de novembro de 2024, Meire relatou que Leonardo Meirelles a apresentou a Cyllas Salerno Elias Júnior, policial civil de São Paulo sob suspeita de envolvimento com faccionados e denunciado por lavagem de dinheiro vinculada ao PCC. Na conversa, ela encaminhou uma notícia da prisão de Cyllas na Operação Tai Pan, da Polícia Federal, e um print de um diálogo mantido com ele, que comprova o ajuste para a prestação de serviços contábeis. Ela também afirmou que "não é possível que o Leonardo nunca tenha alguma coisa que preste na vida", sugerindo a habitualidade do envolvimento de Leonardo Meirelles com atividades ilícitas.

Em diversas oportunidades, Meire atuou profissionalmente em favor do advogado Amjad Ahmad, o "Amim". Em mensagens de 7 de maio de 2021, informou a Cléber que se encontraria com "Amim" para lhe entregar os "impostos" – expressão que, no contexto, indica o repasse de declarações de imposto de renda, revelando a atuação direta da doleira na organização e manejo de informações sensíveis para ocultação e dissimulação patrimonial.

Atuação criminosa e rendimentos

Os promotores do Gaeco assinalam que o papel de Meire não se limitava ao assessoramento contábil, mas também cometia os mesmos crimes que sua estrutura fomentava. Em 14 de março de 2022, ela solicitou a "Amim" a quantia de R$ 55 mil em espécie, mediante operação de "troca de TED por vivo", a qual foi aceita. Em 25 de maio de 2022, Meire pediu a Amjad Ahmad os informes de rendimento para elaboração de sua declaração ao Fisco federal e, em 30 de maio de 2022, o felicitou, chamando-o de "contribuinte modelo", o que revela sua atuação direta na manipulação de dados fiscais.

Os investigadores recuperaram mensagens de 20 de julho de 2022 nas quais Meire buscava contato na África para atender demanda de um cliente libanês residente na Turquia, posteriormente identificado como o próprio Amjad Ahmad, o que "evidencia a amplitude das tratativas por ela conduzidas".

O acesso às mensagens de Meire, uma delas de 6 de fevereiro de 2023, levou os promotores à descoberta de seus rendimentos bancados pelo PCC, no montante de R$ 70 mil mensais. Ela recebia da facção para garantir a disponibilização exclusiva de sua estrutura contábil para atendimento das demandas do grupo integrado por Cléber. Em diálogo com Ahmad "Amim", Meire afirmou que estaria "quebrando um galho".

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Atividades recentes e conclusão

Em 10 de agosto de 2023, Meire viabilizou o registro de uma empresa controlada por Amjad Ahmad no sistema RADAR da Receita Federal, habilitação indispensável para operações de comércio exterior. Os promotores destacam que "companheiro" Cléber, Meire Poza, Leonardo Meirelles e outros seis são réus da Operação Bazaar. Meirelles encontra-se foragido, em razão de mandado de prisão após ser condenado por associação para o tráfico de drogas e também no âmbito da Operação Bazaar.

Segundo a Promotoria, parte dos investigados pratica crimes há mais de 12 anos, havendo condenações definitivas, a exemplo da própria Meire Poza, "o que demonstra sua recalcitrância em deixar de delinquir".