Delegado de Roraima alvo de 47 ações por abuso e misoginia
Delegado de Roraima alvo de 47 ações por abuso e misoginia

O delegado da Polícia Civil de Roraima Alexandre Henrique de Matos Lima, de 50 anos, acumula quase 50 procedimentos disciplinares e criminais, com um padrão de agressividade contra mulheres, segundo o Ministério Público de Roraima (MPRR). A afirmação consta em ação que pede o afastamento dele das funções.

Padrão de conduta misógina

O MPRR cita que episódios envolvendo o delegado revelam conduta reiterada de ofensas, intimidações e uso da posição funcional contra mulheres. Os casos não devem ser vistos como isolados, mas como parte de um comportamento classificado como “misoginia institucionalizada”. A representação enumera situações envolvendo uma agente da Polícia Civil, duas funcionárias de um condomínio e a própria esposa do delegado, que possui medida protetiva contra ele.

O g1 procurou o delegado, mas não recebeu resposta até a última atualização. O documento afirma: “Os fatos deixam de configurar episódios avulsos e passam a compor um quadro estrutural e reiterado de abuso de autoridade, misoginia institucionalizada e utilização do cargo e do aparato policial como instrumento de intimidação — quadro esse que remonta há mais de duas décadas de procedimentos disciplinares e criminais sistematicamente neutralizados pela prescrição e pela decadência, sem jamais resultar em responsabilização efetiva”.

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Ameaça a agente e ofensas em condomínio

Um dos casos ocorreu em julho de 2025, na Delegacia-Geral da Polícia Civil. Uma agente pediu que o delegado retirasse o carro particular de vaga destinada a viaturas. Ele questionou a abordagem da policial recém-ingressa e disse a outro servidor que iria “mandar prender essa vagabunda”. Para o MP, a reação demonstrou tentativa de desqualificar a servidora por sua posição na corporação.

Em junho de 2026, em um condomínio de Boa Vista, duas funcionárias orientaram o delegado sobre regras internas relacionadas a uma mudança. O MP afirma que ele as ofendeu com termos como “vagabunda” e “filha da puta”, tomou o telefone de uma delas quando tentava acionar o síndico e disse possuir fuzis no veículo, causando medo. A postura mudou após o subsíndico se apresentar como general do Exército.

Segundo o MP, essa diferença de comportamento reforça que a agressividade era direcionada principalmente a mulheres em posições hierarquicamente inferiores. “Essa repetição do mesmo padrão de deferência seletiva a homens hierarquicamente valorizados, em contraposição à agressividade sistemática contra mulheres em posição de trabalho subalterna”, cita a representação.

Violência doméstica e histórico de procedimentos

O MP também cita violência doméstica contra a esposa do delegado, que resultou em medida protetiva. O órgão defende que a permanência no cargo representa risco às vítimas e testemunhas, considerando o histórico de procedimentos desde 2005. Pediu à Justiça o afastamento das funções públicas, suspensão do porte de arma, recolhimento do armamento funcional e restrições de contato com as vítimas.

A Polícia Civil de Roraima informou que o caso tramita em segredo de justiça e que “todas as medidas e determinações judiciais, no âmbito da Corporação, foram adotadas tempestivamente”.

O documento afirma que o delegado respondeu ou responde a pelo menos 47 procedimentos disciplinares e criminais desde 2005, incluindo processos administrativos, sindicâncias, termos circunstanciados e inquéritos por suspeitas de abuso de autoridade, ameaça e extorsão. Um caso de 2007 envolve suspeita de abuso de autoridade, ameaça e extorsão de R$ 10 mil para liberar um preso. Em 2013, respondeu a 11 termos circunstanciados por injúria e ameaça contra diferentes vítimas, entre elas o então delegado-geral adjunto. Em 2015, foi alvo de sindicância por abuso de autoridade contra um migrante venezuelano em Amajari, apresentando-se como corregedor de polícia.

Parte dos procedimentos terminou com arquivamento ou absolvição na esfera administrativa. O MP afirma: “Essa ausência histórica de resposta cautelar contribuiu para consolidar no investigado a percepção de intangibilidade que permitiu a escalada ora relatada, migrando de um padrão de abuso de autoridade genérico para um padrão consolidado e recente de misoginia institucionalizada”.

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Além do afastamento, o MP pediu suspensão das funções públicas, porte de arma, recolhimento do armamento funcional, bloqueio de acesso aos sistemas da Polícia Civil, proibição de contato com as vítimas e acesso às unidades policiais.