As principais facções criminosas do Brasil reformularam suas estratégias logísticas para garantir o fluxo de cocaína rumo ao mercado europeu, de acordo com um relatório da Polícia Federal obtido com exclusividade. O documento aponta que, em 2025, as apreensões de cocaína nos portos brasileiros com destino à Europa caíram 15% em relação ao ano anterior, não por redução do tráfico, mas pela adoção de métodos mais sofisticados de ocultação e rotas alternativas.
Portos menores e cargas lícitas
A principal mudança identificada pela PF é a migração das operações dos grandes terminais portuários, como Santos e Paranaguá, para portos menores no Norte e Nordeste, como Itaqui (MA) e Suape (PE). Esses locais oferecem menos fiscalização e permitem a mistura de drogas em cargas de commodities, como soja e minério de ferro. "O crime organizado está usando a capilaridade do comércio exterior brasileiro para diluir o risco", afirma o delegado Carlos Mendes, coordenador da repressão ao tráfico internacional da PF.
Novas tecnologias de ocultação
Além da geografia, as facções investiram em tecnologia. Scanneres de contêineres estão sendo burlados com o uso de invólucros especiais que neutralizam a detecção. Em uma operação recente no Porto de Santos, a PF encontrou 500 kg de cocaína escondidos em um lote de café solúvel, com a droga envolta em material que confundia os equipamentos de raio-X. "É uma corrida armamentista tecnológica", diz Mendes.
Rotas marítimas diversificadas
Os carregamentos não seguem mais rotas diretas. Agora, a cocaína passa por transbordos em portos intermediários, como na África Ocidental (Costa do Marfim, Gana) e no Caribe, antes de chegar à Europa. Isso dificulta o rastreamento por autoridades europeias. Dados da agência europeia de fronteiras (Frontex) indicam que, em 2025, as apreensões no continente europeu de drogas oriundas do Brasil caíram 22%, mas o preço da cocaína nas ruas europeias não subiu, sinal de que a oferta não diminuiu.
Parcerias com facções locais
No Brasil, o Comando Vermelho e o PCC firmaram alianças com grupos locais em portos africanos e europeus para gerenciar a logística de chegada. Um relatório de inteligência da Marinha do Brasil revelou que barcos pesqueiros são usados para transportar a droga até navios maiores em alto-mar (ship-to-ship transfer), especialmente na costa do Pará e do Amapá. "Eles estão terceirizando o risco para intermediários", explica a analista de segurança Laura Bittencourt, do Instituto Igarapé.
Impacto no combate
Para a PF, a situação exige uma cooperação internacional mais ágil. "Precisamos de inteligência compartilhada em tempo real com as polícias europeias e africanas", defende Mendes. Enquanto isso, a agência estima que 72 toneladas de cocaína tenham sido enviadas do Brasil para a Europa em 2025, um recorde histórico. O valor do mercado europeu da droga é calculado em US$ 8 bilhões anuais, com a maior parte controlada por facções brasileiras.
A mudança na logística também tem impacto ambiental, com o descarte de carregamentos em caso de interceptação. Em fevereiro de 2026, apreensões no litoral do Maranhão resultaram em 200 kg de cocaína jogados ao mar, contaminando a fauna marinha. "É um crime que afeta não só a segurança, mas o meio ambiente", alerta Bittencourt.
O relatório conclui que, sem uma ação coordenada, o tráfico para a Europa continuará se adaptando. "Enquanto houver demanda, haverá oferta", resume Mendes. A PF planeja intensificar operações nos portos menores e ampliar o uso de inteligência artificial para análise de dados de cargas suspeitas.



