Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Toronto, no Canadá, revelou que a alimentação dos pais antes da concepção pode influenciar diretamente o peso e as medidas corporais dos bebês ao nascer. A pesquisa, publicada na revista BMC Medicine, analisou dados de cerca de 4 mil mães e 3,5 mil pais e constatou que o consumo elevado de alimentos ultraprocessados por ambos os progenitores está associado a um aumento no peso ao nascer, no perímetro cefálico e na circunferência do braço dos recém-nascidos.
Impacto dos ultraprocessados na saúde dos bebês
Os alimentos ultraprocessados – como refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, embutidos e refeições prontas – são ricos em açúcares, gorduras e aditivos químicos, e pobres em nutrientes essenciais. De acordo com os pesquisadores, cada aumento de 10% no consumo desse tipo de alimento por qualquer um dos pais foi associado a um incremento médio de 0,3 cm no perímetro cefálico e 0,2 cm na circunferência do braço dos bebês. Além disso, o peso ao nascer também foi maior entre os filhos de pais com dieta rica em ultraprocessados.
“Esses resultados sugerem que a dieta dos pais antes da concepção pode programar o desenvolvimento fetal, independentemente do índice de massa corporal (IMC) dos pais”, afirmou a coordenadora do estudo, a professora Maria de Fátima, do Departamento de Nutrição da USP. “Isso reforça a importância de intervenções nutricionais ainda no período pré-concepcional, voltadas tanto para mães quanto para pais.”
Riscos de macrossomia e obesidade futura
O aumento do peso ao nascer pode levar à macrossomia fetal – condição em que o bebê nasce com mais de 4 kg –, o que eleva os riscos de complicações no parto, como distócia de ombro, e de problemas metabólicos na vida adulta, como obesidade e diabetes tipo 2. A pesquisa também aponta que a exposição a substâncias inflamatórias presentes nos ultraprocessados pode alterar a expressão gênica e o ambiente uterino, afetando o crescimento fetal.
Os cientistas destacam que o efeito foi observado de forma independente entre mães e pais, indicando que a qualidade da dieta de ambos os progenitores é relevante para a saúde do bebê. “Muitas vezes, as recomendações nutricionais focam apenas na mãe durante a gestação, mas nosso estudo mostra que o pai também tem um papel importante”, complementou a pesquisadora.
Metodologia e próximos passos
O estudo utilizou dados de coortes de nascimento brasileiras e canadenses, com acompanhamento longitudinal. Os participantes preencheram questionários de frequência alimentar e tiveram suas medidas antropométricas registradas. Os pesquisadores ajustaram os resultados para fatores como idade, escolaridade, renda e IMC dos pais, garantindo que a associação observada fosse realmente devida ao consumo de ultraprocessados.
Para o futuro, a equipe planeja investigar os mecanismos biológicos envolvidos, como a influência de aditivos alimentares no metabolismo fetal, e avaliar se intervenções dietéticas pré-concepcionais podem reverter esses efeitos. “Precisamos de políticas públicas que incentivem a redução do consumo de ultraprocessados entre os jovens em idade reprodutiva”, concluiu Maria de Fátima.



