O rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil deixou de ser sinônimo exclusivo do exame de Papanicolau. Especialistas em ginecologia destacam que a incorporação do teste de HPV, a revisão da faixa etária e a análise do risco individual estão transformando a prevenção dessa doença, que ainda atinge milhares de mulheres todos os anos. As novas diretrizes, apoiadas por sociedades médicas e pelo Ministério da Saúde, buscam reduzir a mortalidade e evitar exames desnecessários.
O que dizem as novas recomendações
Segundo médicos ouvidos em reportagem do GLOBO, a principal mudança é a priorização do teste de HPV-DNA como ferramenta de rastreamento primário em alguns cenários. O exame detecta a presença do vírus de alto risco oncogênico antes do desenvolvimento de lesões. O Papanicolau, que investiga alterações nas células do colo do útero, segue essencial, mas agora é indicado de forma complementar ou para triagem de casos específicos, conforme o resultado inicial.
O rastreamento regular continua sendo a estratégia mais eficaz para diagnosticar precocemente as lesões precursoras, evitando a progressão para o câncer. A doença costuma demorar anos para se desenvolver, e a detecção em estágio inicial possibilita tratamento conservador e altas chances de cura.
Com que idade e frequência fazer
A orientação vigente no Brasil, alinhada a organismos internacionais, recomenda o início do rastreamento aos 25 anos para mulheres que já iniciaram vida sexual. Até os 64 anos, a periodicidade sugerida é de três anos para o Papanicolau após dois exames anuais consecutivos normais. No caso do teste de HPV, o intervalo pode ser maior, de cinco anos, quando o resultado é negativo para os tipos de alto risco.
- Papanicolau: a cada 3 anos após dois resultados anuais negativos.
- Teste de HPV-DNA: a cada 5 anos se o resultado for negativo.
- Encerramento: aos 64 anos, após exames regulares anteriores com resultados normais.
Médicos alertam que mulheres acima de 64 anos que nunca fizeram rastreamento devem realizá-lo ao menos uma vez. O mesmo vale para quem não completou os exames na idade adequada.
Quem precisa se preocupar mais
O câncer do colo do útero é mais frequente em mulheres com vida sexual ativa, principalmente entre 30 e 50 anos. Fatores como infecção persistente por HPV, tabagismo, uso prolongado de anticoncepcionais, múltiplos parceiros e imunossupressão aumentam o risco. A vacina contra o HPV, disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, é a principal ferramenta de prevenção primária, mas não substitui o rastreamento.
Entendendo os resultados
Um resultado alterado no Papanicolau não significa câncer. Lesões de baixo grau geralmente regridem espontaneamente, especialmente em mulheres jovens. O médico pode indicar a repetição do exame em seis a 12 meses ou a realização da colposcopia para avaliar o colo do útero com lentes de aumento. Já o teste de HPV positivo para tipos de alto risco exige investigação complementar, mesmo que a citologia seja normal.
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a conduta deve ser individualizada, considerando a idade, o histórico de exames e as condições de seguimento. Encaminhamentos desnecessários para procedimentos cirúrgicos podem ser evitados com a correta hierarquização dos casos.
O cenário epidemiológico
O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima cerca de 17 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano no Brasil, com um risco aproximado de 15 a cada 100 mil mulheres. É o terceiro tumor mais incidente na população feminina, excluindo o de pele não melanoma. A doença causa aproximadamente 6 mil mortes anualmente, e a maioria dos óbitos ocorre em mulheres de baixa renda e com acesso limitado aos serviços de saúde.
O papel do SUS e as barreiras de acesso
O Sistema Único de Saúde oferece gratuitamente o rastreamento nas unidades básicas de saúde. A Estratégia Saúde da Família é o principal mecanismo de busca ativa de mulheres que nunca realizaram o exame. Especialistas defendem que o rastreamento organizado, com convocação e monitoramento, é superior ao atendimento por demanda espontânea, que deixa muitas mulheres sem acompanhamento.
Outra barreira é o constrangimento e o medo do exame. Profissionais de saúde recomendam que as unidades adotem abordagem acolhedora e que os profissionais aproveitem qualquer contato com a mulher para checar a regularidade do rastreamento, inclusive durante consultas de pré-natal e planejamento reprodutivo.
Avanços tecnológicos e futuro
O teste de HPV, gradualmente incorporado ao SUS em algumas regiões, permite o uso de amostras autocoletadas, ampliando o acesso a mulheres de áreas remotas. A pesquisa em biomarcadores e testes moleculares promete maior precisão na indicação de colposcopia, reduzindo o sobrediagnóstico e o tratamento de lesões que regrediriam naturalmente.
Os médicos ressaltam que nenhum exame substitui a prevenção combinada: vacinação na adolescência, rastreamento periódico na vida adulta e tratamento imediato das lesões precursoras. Com essas medidas, o Brasil pode reduzir significativamente a incidência e a mortalidade por esse tipo de câncer nos próximos anos.



