Na manhã de um Dia dos Pais, um guincho plataforma parou diante da casa de Júlio Samuel Marx, em São Paulo, e descarregou um Jaguar XK120 impecável. Quem atendeu a porta foi o próprio Júlio, que correu para acordar o filho Flávio aos gritos, agradecendo o que acreditava ser um presente. Flávio, porém, havia comprado o carro para si mesmo. Sem coragem de desfazer o mal-entendido, respondeu apenas: “Que bom que você gostou, pai.” O Jaguar nunca mais saiu da família e hoje pertence a Maurício Augusto Marx, filho de Flávio, que nasceu em 1980 e carrega a terceira geração de uma família paulistana dedicada ao universo dos carros antigos.
Uma herança de mais de cem carros
Conhecido como Mau, Maurício cresceu dentro de oficinas e absorveu a paixão do avô e do pai. O avô Júlio já era entusiasta; o pai, Flávio Augusto Marx, advogado criminalista, tornou-se um dos maiores colecionadores do país a partir dos anos 1960, com foco em esportivos, carrocerias especiais e carros de competição. Nos anos 1970 e 80, muitos clássicos de alumínio valiam menos que o próprio metal e iam parar em ferros-velhos. “Se não fosse a visão de caras como o meu pai, a gente estaria cozinhando hoje numa panela feita com o alumínio de uma Maserati de competição”, disse Maurício à Trip FM.
Flávio morreu prematuramente em 1999, quando Maurício tinha 19 anos. Junto com o irmão Guilherme, ele herdou uma paixão e mais de cem automóveis para administrar. Muitas coleções inteiras foram desmanteladas no Brasil quando o colecionador morria, mas a dos Marx conseguiu se manter. Para isso, o jovem precisou aprender rapidamente o que o pai nunca havia priorizado: preço, mercado, negociação e vendas. Foi necessário decidir quais carros vender para preservar os demais.
Profissionalização e pesquisa histórica
Aprender a vender foi o que permitiu continuar guardando. Em 2013, Mau abriu a primeira loja e profissionalizou a negociação, que antes acontecia em trocas informais na oficina. Hoje ele comercializa por meio do Gear Head Club, hub dedicado a carros de coleção. Em paralelo, formou-se em direito, cursou dois anos de filosofia por imposição do pai — “que bom que ele me obrigou” — e se tornou um pesquisador determinado. Criou o Race Car Register, registro da história do automobilismo brasileiro que cataloga carros, equipes, pilotos e mecânicos.
Também entrou como coprodutor de Eu Queria Ser Chico Landi, documentário dirigido por Paulo Pastorelo com estreia prevista para novembro de 2026 nos cinemas e exibição posterior em Claro TV, SporTV e Globoplay. O filme resgata a trajetória do primeiro brasileiro a vencer um Grande Prêmio na Europa e a correr na Fórmula 1, um homem que morreu em 1989 magoado por nunca ter sido convidado a dar a bandeirada em Interlagos, autódromo que ajudou a erguer.
Um mercado de R$ 32,6 bilhões
O antigomobilismo deixou de ser nicho restrito a milionários excêntricos. Pesquisa da FIVA, a federação internacional dos veículos antigos, divulgada no Brasil pela Federação Brasileira de Veículos Antigos, estima que o setor movimenta R$ 32,6 bilhões por ano no país, de Fuscas com preços acessíveis a Ferraris e Porsches das décadas de 60 e 70. Segundo Maurício, a pandemia impulsionou esses números por um motivo ligado ao medo e à nostalgia. “Cansei de ouvir frases como: ‘Eu quero ter aquele carro antigo que me remete à minha família, que remetia ao meu avô’”, contou. Para ele, a proximidade da morte fez as pessoas se agarrarem ao passado.
Carros brasileiros que fizeram história
Maurício divide os colecionadores em dois grupos: o histórico, que busca a técnica e a origem dos automóveis, e o nostálgico, que procura o carro da própria memória afetiva. No Brasil, ele destaca a Romi-Isetta, primeiro desenvolvimento da indústria nacional, lançado em 1956 com cerca de 3 mil unidades produzidas até 1961 pelas Indústrias Romi, em Santa Bárbara d’Oeste. Cita ainda o Willys Interlagos, réplica do Renault Alpine e primeiro carro brasileiro com carroceria de fibra, que fez sucesso nas pistas e hoje atrai europeus que vêm ao Brasil para comprá-lo. Outra preciosidade de sua coleção é o FK Roadster, construído artesanalmente pelo lituano Francisco Kazakevicius em Porto Alegre, em 1954, antes mesmo da indústria automobilística brasileira.
Preços, restauração e impostos
Para quem quer entrar no mundo dos antigos, Maurício alerta que o restauro pode custar mais que o próprio carro. Um Fusca 67 bem restaurado exige investimento de R$ 60 mil a R$ 80 mil, mas a venda não ultrapassa R$ 35 mil a R$ 40 mil. A recomendação é comprar o carro pronto. No fim dos anos 70, um Fiat 147 pode ser encontrado por R$ 18 mil a R$ 25 mil. Já quem traz um carro de fora paga, em média, 120% de imposto sobre o valor do veículo e do frete. Uma Mercedes Asa de Gaivota avaliada em US$ 1,5 milhão na Europa não chega por menos no Brasil. Ele lamenta que, nos anos 70 e 80, europeus levaram do país parte importante do patrimônio automobilístico nacional por preços baixos, inclusive carros de competição.
Chico Landi e a primeira vitória da Ferrari
O resgate de Chico Landi é uma das maiores missões de Maurício. Em 1948, Landi venceu o Grande Prêmio de Bari pilotando uma Ferrari 166 SC, dando à marca de Enzo Ferrari a primeira vitória de uma Ferrari de Fórmula. A participação foi tão marcante que o Automóvel Clube de Bari batizou a prova de Copa Brasile. Landi também criou a primeira escuderia brasileira, a Escuderia Bandeirantes, com Maseratis amarelas de rodas verdes, levando para as pistas o rival Gino Bianco. Sua estreia na Fórmula 1 aconteceu em 1951, no GP da Itália, com uma Ferrari 375. “O que me pega mesmo é a competição”, disse Maurício, que lamenta o esquecimento de Landi e de outros pioneiros, como o piloto negro Benedicto Lopes, provavelmente o primeiro negro a guiar uma Maserati no mundo.
Carros elétricos e memória afetiva
Maurício acredita que os veículos elétricos atuais, como os BYDs, também podem se tornar clássicos um dia, não pela mecânica, mas pelas relações afetivas que criam. Ele compara os carros a seres vivos: todos os seus exemplares têm nome e ele confessa sentir dor ao ver um automóvel em ferro-velho. A emoção de ressuscitar um motor parado há décadas permanece inigualável. Lembra de uma Hispano-Suiza dos anos 20 que, ao pegar de madrugada, levou o pai a servir champanhe para todos. Para ele, andar de carro antigo é também função social: gera conversas, histórias e conexões.



