“Nunca soubemos tanto sobre exercício, mas nunca tivemos tanta gente treinando sem direção.” A afirmação é do preparador físico Luciano D’Elia, que aproveita o lançamento de seu novo livro para fazer uma crítica contundente ao modo como a maioria das pessoas se exercita hoje. Para ele, o acesso à informação não tem se convertido em treinamento eficiente, e o problema estaria justamente na falta de orientação profissional e na busca por atalhos.
Na obra, D’Elia defende que o treinamento deve ser desenhado de acordo com as necessidades de cada pessoa. Isso significa abandonar a ideia de que existe uma “fórmula única” capaz de funcionar para todos. O autor também ataca a obsessão por resultados imediatos, que leva muitos alunos a pularem de plano em plano sem dar tempo para o corpo se adaptar.
O mito da fórmula única
O mercado fitness está repleto de promessas genéricas. Programas de 30 dias, treinos que prometem transformação sem sair de casa e desafios que ignoram as particularidades de cada biótipo. D’Elia classifica essas abordagens como simplistas e perigosas. Em seu livro, ele explica que dois praticantes submetidos ao mesmo treino podem ter respostas completamente diferentes.
Isso porque fatores como genética, histórico de atividades, lesões prévias, sono, alimentação e até estresse emocional influenciam diretamente o desempenho. O que falta, na visão do autor, é uma avaliação individualizada antes de qualquer prescrição. Sem ela, o treino vira uma aposta, não uma estratégia.
A importância da avaliação profissional
Para fugir das fórmulas prontas, D’Elia sugere que o primeiro passo é uma avaliação completa. Essa etapa não se limita a medidas ou testes de força; envolve entender a rotina do aluno, seus objetivos e suas limitações. Com esses dados, o profissional tem condições de montar um programa que realmente faça sentido.
O autor ainda lembra que o corpo humano é dinâmico. Um treino que funciona em um período pode precisar de ajustes semanas depois. É por isso que o acompanhamento próximo é tão importante. A periodização – ou seja, a organização planejada dos estímulos ao longo do tempo – aparece como uma ferramenta essencial para evitar platôs e lesões.
Resultados imediatos: um atalho que não leva a lugar nenhum
A segunda grande crítica do livro é direcionada à cultura do “resultado rápido”. D’Elia observa que a ansiedade por mudanças visíveis em poucas semanas tem feito pessoas se submeterem a treinos exaustivos e dietas restritivas, muitas vezes sem supervisão. O efeito colateral é conhecido: lesões, cansaço extremo e abandono da atividade.
Em vez de buscar atalhos, o preparador defende que o caminho eficaz é o da constância. Resultados sustentáveis aparecem com o tempo, desde que o treino seja bem planejado e o descanso respeitado. O livro busca desconstruir a noção de que mais é sempre melhor, mostrando que a qualidade do estímulo supera a quantidade.
O paradoxo da era da informação
Nunca se falou tanto em saúde e exercício como nos dias atuais. Redes sociais, aplicativos, podcasts e estudos à disposição de todos. No entanto, D’Elia alerta que essa abundância criou um fenômeno curioso: muitas pessoas sabem sobre exercício, mas não sabem como aplicá-lo na própria rotina. É o conhecimento sem direção.
O papel do profissional, nesse cenário, seria justamente o de traduzir a ciência para a prática. Não basta reproduzir um vídeo ou seguir um aplicativo; é preciso entender o porquê de cada exercício, ajustar variáveis e respeitar os limites do corpo. O livro oferece um guia para leigos e profissionais, reforçando a importância de um olhar crítico sobre o conteúdo consumido.
O que esperar da obra
Com linguagem direta e exemplos práticos, o novo livro de Luciano D’Elia se propõe a ser um antídoto contra a banalização do treinamento. Ele não traz uma receita mágica, justamente porque acredita que receitas mágicas não existem. A mensagem central é convidar o leitor a refletir: você está seguindo um plano feito para você ou repetindo o que viu na internet?
A publicação chega ao mercado em um momento em que o fitness está em alta, mas também sob suspeita. D’Elia espera que sua obra ajude a elevar o nível do debate e incentive mais pessoas a procurarem acompanhamento especializado. Afinal, treinar sem direção é como navegar sem mapa: você até se movimenta, mas não sabe se está indo para o lugar certo.
Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo



