Estudo da UFRJ revela: mulheres são mais sensíveis ao estresse crônico
Estudo da UFRJ: mulheres sofrem mais com estresse crônico

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou que as fêmeas são mais sensíveis aos efeitos nocivos do estresse crônico do que os machos. O estudo, realizado com camundongos Swiss, mostrou que as fêmeas apresentam alterações comportamentais relacionadas à ansiedade e à depressão de forma mais evidente, além de um aumento no hormônio do estresse, a corticosterona. Esses resultados se assemelham aos dados clínicos em humanos, nos quais as mulheres são mais propensas a desenvolver ansiedade e depressão induzidas pelo estresse.

O que o estudo investigou

O objetivo da pesquisa, publicada no g1, foi entender se machos e fêmeas reagem de forma diferente ao estresse prolongado e em que momento essa diferença aparece. Para isso, os pesquisadores utilizaram um modelo de estresse crônico moderado imprevisível (CUMS, na sigla em inglês), expondo camundongos Swiss adultos a quatro, seis ou oito semanas de estressores ambientais acumulados, simulando o estresse da vida moderna.

Após cada período, os animais passaram por avaliação comportamental e quantificação da corticosterona sérica, o principal hormônio do estresse em roedores, equivalente ao cortisol em humanos. O estudo contou com financiamento do CNPq, da FAPERJ e da Capes, e foi aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais de Laboratório da UFRJ, seguindo as diretrizes do Concea.

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Resultados: diferenças entre machos e fêmeas

Os resultados mostraram que machos e fêmeas desenvolveram sinais de ansiedade já nas primeiras semanas, mas as respostas seguiram caminhos diferentes. As fêmeas apresentaram alterações comportamentais mais evidentes relacionadas à ansiedade e à depressão, além de uma estratégia de enfrentamento distinta. Os sinais de comportamento depressivo, como menos disposição para reagir diante de situações difíceis, só surgiram após dois meses de estresse contínuo. Além disso, apenas as fêmeas apresentaram aumento da corticosterona no sangue.

Segundo as pesquisadoras Gilda Angela Neves, Isis Nem de Oliveira Souza, Ana Clara Fernandes da Silva e Rachel de Barros Telles, do Laboratório de Farmacologia Molecular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, “as fêmeas parecem ser mais sensíveis aos efeitos nocivos do estresse crônico do que os machos”. Esse padrão se assemelha aos dados clínicos em humanos, nos quais as mulheres são mais propensas a desfechos adversos induzidos pelo estresse, como ansiedade e depressão.

Diferencial da pesquisa

A importância do trabalho está na comparação direta e abrangente das diferenças entre os sexos nas respostas comportamentais induzidas pelo estresse. A maioria dos estudos anteriores concentrou-se em linhagens de camundongos geneticamente idênticos (isogênicos), o que negligencia a variabilidade genética da população humana. Os camundongos Swiss, por outro lado, possuem variação genética mais ampla, mimetizando de forma mais fiel a variabilidade humana.

“Estudos abrangentes sobre os efeitos de longo prazo do estresse, comparando machos e fêmeas diretamente, contribuem não só para a compreensão dos malefícios do estresse, mas também para entendermos os mecanismos de resiliência”, destacam as pesquisadoras. Entender esses mecanismos pode abrir caminho para novas formas de tratar doenças psiquiátricas relacionadas ao estresse.

Contexto: o estresse crônico como problema de saúde pública

O estresse crônico é um importante fator de risco para diversos transtornos mentais, incluindo depressão e ansiedade. Atualmente, o transtorno depressivo maior afeta mais de 320 milhões de pessoas no mundo, sendo a 13ª principal causa de incapacidade. Projeções indicam que se tornará a principal causa até 2030. Os sintomas incluem humor depressivo, perda de interesse em atividades prazerosas, alterações de peso e apetite, distúrbios do sono e redução do foco. A complexidade da doença é um desafio médico, pois cerca de um terço dos pacientes não responde bem aos tratamentos disponíveis.

Este estudo reforça a necessidade de considerar as diferenças entre os sexos na pesquisa e no tratamento de transtornos relacionados ao estresse, contribuindo para uma abordagem mais personalizada na medicina.

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