Cortes de verba podem reverter avanços no combate ao HIV, alerta UNAIDS
Cortes de verba podem reverter avanços no combate ao HIV

O HIV deixou de ser, ao longo das últimas quatro décadas, uma sentença de morte para se tornar uma infecção tratável e prevenível com medicamentos cada vez mais eficazes. No entanto, um novo relatório do UNAIDS, o programa das Nações Unidas para o combate à AIDS, acende um alerta: cortes no financiamento internacional, a redução dos serviços de prevenção e o avanço de políticas que restringem direitos das populações mais vulneráveis podem colocar em risco todo o progresso conquistado contra o vírus.

Apesar de as mortes relacionadas à AIDS estarem no menor patamar em 30 anos, a ONU afirma que a meta de eliminar a doença como ameaça à saúde pública até 2030 corre sério risco. O Brasil, embora continue sendo referência no acesso ao tratamento, aparece entre as 21 nações que registraram aumento de novos casos de HIV. Esse cenário preocupa especialistas e exige uma análise aprofundada sobre os caminhos para evitar um retrocesso.

Progresso ameaçado por cortes e desmonte de políticas públicas

Os avanços científicos permitiram que o HIV fosse controlado com terapias antirretrovirais de alta eficácia e, mais recentemente, com a profilaxia pré-exposição, a PrEP. No entanto, o relatório do UNAIDS destaca que o progresso não é irreversível. A queda nos investimentos internacionais em programas de prevenção e tratamento já tem impacto concreto na vida de milhões de pessoas que dependem do sistema público de saúde para ter acesso a esses medicamentos.

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Dados da agência da ONU mostram que, entre as nações com aumento de novos casos, está o Brasil, que historicamente serviu de modelo para o mundo no enfrentamento à epidemia. O país, que foi um dos pioneiros na distribuição gratuita de coquetéis antirretrovirais e na política de redução de danos, hoje enfrenta um crescimento preocupante nas taxas de infecção, especialmente entre grupos mais vulneráveis.

O que explica o aumento de casos no Brasil?

Para a médica infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente da Sociedade Internacional de AIDS (IAS) e diretora do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, o aumento de casos no Brasil não é um fenômeno isolado, mas reflete uma combinação de fatores. Entre eles, o enfraquecimento das políticas de prevenção e a ampliação da vulnerabilidade de grupos mais expostos, como homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas trans e usuários de drogas injetáveis.

Grinsztejn avalia que os cortes no financiamento internacional afetam diretamente organizações da sociedade civil que atuam na ponta, alcançando populações que muitas vezes não têm acesso aos serviços públicos de saúde. Além disso, políticas que restringem direitos e estigmatizam essas comunidades afastam as pessoas dos serviços de testagem e tratamento, o que contribui para a cadeia de transmissão.

A cientista também ressalta que, embora os avanços científicos tenham proporcionado ferramentas eficazes de prevenção, como a PrEP, a implementação dessas estratégias no Brasil ainda é desigual. A distribuição da pílula anti-HIV, que é oferecida gratuitamente pelo SUS, muitas vezes não chega às regiões mais carentes e às populações mais vulneráveis, evidenciando um déficit na política pública.

Brasil ainda é referência, mas precisa retomar prioridade

A infectologista reconhece que o Brasil continua sendo referência mundial no acesso ao tratamento. O país tem uma rede de saúde pública que oferece testagem gratuita, distribuição de preservativos e medicamentos antirretrovirais para todos os pacientes diagnosticados, independentemente da condição social. Esse modelo, implantado nas décadas de 1990 e 2000, foi fundamental para reduzir a mortalidade e a transmissão vertical do HIV.

No entanto, a manutenção desse patrimônio exige investimento contínuo e uma agenda política que priorize a saúde pública. O episódio do podcast O Assunto, conduzido por Victor Boyadjian, discute justamente essa contradição: como um país que tem um dos melhores sistemas de tratamento do mundo pode estar entre os que registraram aumento de novos casos? A resposta passa pela falta de integração entre as políticas de prevenção e o enfraquecimento das campanhas de conscientização.

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Cortes internacionais e o risco de ressurgimento da epidemia

O relatório do UNAIDS não poupa críticas aos países doadores que reduziram suas contribuições. A agência da ONU alerta que, se os cortes continuarem, o mundo pode ver um ressurgimento da epidemia, desfazendo décadas de conquistas. A meta de acabar com a AIDS até 2030, estabelecida na Assembleia Geral das Nações Unidas, tornou-se ainda mais distante diante desse cenário.

Para Grinsztejn, a solução exige uma resposta coordenada entre governos, sociedade civil e organismos internacionais. Ela defende que a prevenção combinada — que envolve informação, testagem, distribuição de preservativos, PrEP e tratamento como prevenção — é a única maneira de reverter o aumento de casos. Além disso, é fundamental combater o estigma e a discriminação, que continuam sendo barreiras significativas para o acesso aos serviços de saúde.

Um episódio que traz à tona a urgência do tema

O episódio do podcast O Assunto traz à luz dados que precisam ser debatidos pela sociedade. O Brasil, que já foi exemplo mundial no combate ao HIV, vê agora seus indicadores piorarem enquanto cortes orçamentários e mudanças políticas colocam em risco uma das políticas de saúde mais bem-sucedidas da história do país.

O relatório do UNAIDS é um chamado à ação. Sem financiamento adequado, sem políticas públicas inclusivas e sem o compromisso dos governos, a luta contra a AIDS pode sofrer um retrocesso histórico. A ciência já fez a sua parte; agora, é hora de a política e a sociedade responderem à altura.