Na linha de contato entre a floresta e o asfalto, um grupo de cães de pelagem caramelo percorre a Terra sem ter um dono. Eles não pertencem a uma raça, mas carregam uma identidade brasileira: são os "caramelos", vira-latas que habitam as margens da sociedade. A reportagem do GLOBO, publicada neste domingo, percorreu áreas de transição urbano-ambiental no Rio de Janeiro e em São Paulo para mostrar a dura rotina desses animais, que vivem em um limbo entre a proteção da mata e a hostilidade das cidades.
O termo "caramelo" se popularizou nas redes sociais para designar cães sem raça definida com pelagem em tom de marrom-claro, geralmente com porte médio e temperamento dócil. Apesar da aparência angelical, eles são frequentemente invisíveis para o poder público. Diferentemente dos cães chamados "de raça", que mobilizam campanhas de adoção, os caramelos enfrentam preconceito e são vistos como "comuns demais" para merecer proteção.
Um exército de abandonados
A maioria desses cães é descendente de animais domésticos deixados por seus tutores. De acordo com levantamento do Instituto Pet Brasil, o país encerrou 2023 com mais de 30 milhões de cães e gatos vivendo nas ruas ou em condições de vulnerabilidade — um aumento de 10% em relação a 2019. Desses, estima-se que pelo menos 60% sejam cães, e uma grande parcela tem características de caramelo.
O abandono não é um fenômeno apenas das grandes metrópoles. Cidades de interior, áreas rurais e empreendimentos de veraneio também contribuem para o problema. Muitos cães são deixados para trás quando seus tutores retornam para os centros urbanos ou durante férias. Nas franjas dos municípios, o encontro entre as matas e as zonas residenciais cria um habitat ideal para a sobrevivência desses animais, que se abrigam em bueiros, embaixo de pontes e em regiões de vegetação densa.
Entre a mata e a cidade
Na região da zona oeste do Rio de Janeiro, onde a Mata Atlântica se encontra com bairros como Campo Grande e Vargem Grande, a população de cachorros abandonados é numerosa. De acordo com moradores ouvidos pelo GLOBO, é possível ver grupos de até vinte cães circulando em áreas de proteção ambiental. Para os animais, a mata oferece um abrigo contra a crueldade humana, mas esconde ameaças: eles podem ser presas de onças-pardas, jaguatiricas e outros felinos, além de sofrerem com a falta de alimento regular.
Esses cães também alimentam um ciclo de contaminação ambiental. As fezes depositadas no chão da floresta podem transmitir parasitas para a fauna local, como vermes e protozoários. Em contrapartida, a proximidade com os humanos leva ao risco de zoonoses, como a leishmaniose e a raiva, que podem ser transmitidas para pessoas e outros animais.
Os efeitos na saúde pública
O déficit de cuidados veterinários é drástico. A maioria dos caramelos não é castrada, o que resulta em ninhadas de filhotes que morrem de fome ou doenças. Em média, a vida de um cão abandonado é de apenas 3 a 5 anos, enquanto cães com tutores chegam a 13 anos. A causa de morte mais comum é atropelamento, seguido de doenças infecciosas.
Para a saúde pública, o elevado número de cães de rua gera custos em postos de saúde, que atendem vítimas de mordidas e pessoas infectadas por doenças parasitárias. Especialistas ouvidos pelo GLOBO alertam que a presença dos cães em áreas de preservação aumenta o risco de transmissão de doenças, inclusive para a população humana que frequenta parques. Profissionais de centros de controle de zoonoses relatam que falta estrutura para estancar o crescimento da população de rua, e as campanhas de adoção não atingem os animais adultos, que são maioria.
A atuação das ONGs e protetores
Diante da omissão do poder público, organizações não governamentais e protetores independentes tornaram-se a única rede de apoio para os caramelos. A ONG Viva Caramelo, que atua na zona sul de São Paulo, resgata cães em situação de risco, custeia tratamentos e promove feiras de adoção. No entanto, as iniciativas sofrem com a falta de financiamento contínuo e com a enorme demanda. Voluntários afirmam que a quantidade de cães na fila de espera por tratamento é três vezes maior do que a capacidade de acolhimento.
Além disso, muitas vezes os animais são encontrados em condições extremas. Na semana passada, a ONG resgatou uma cadela caramelada em uma área de encosta na capital paulista, com sinais de maus-tratos e desnutrição. O caso serve para ilustrar o abandono que se repete em todas as regiões.
O que pode ser feito
A solução para os cães caramelos passa por um conjunto de medidas que envolvem todos os setores. Entre elas, está a castração em massa, que reduz a reprodução descontrolada; a identificação eletrônica, que permite responsabilizar tutores que abandonam animais; e campanhas educativas contínuas nas escolas. Especialistas defendem ainda que o manejo de colônias de cães em áreas verdes deve ser feito de forma ética, com a implementação do método CED (Captura, Esterilização e Devolução) em locais onde a remoção total seja inviável.
No plano municipal, é essencial que as prefeituras criem departamentos de bem-estar animal com orçamento próprio e estrutura para atendimento veterinário. O avanço do projeto de lei que tramita no Congresso, que define a Política Nacional de Direitos Animais, pode dar um primeiro passo para que o abandono seja tratado como crime de maus-tratos com penas mais severas. Enquanto isso, a sociedade civil segue pressionando por mudanças.
Caramelos como símbolo de resistência
Apesar de tudo, os caramelos ganharam status de heróis nas redes sociais. Viraram memes, inspiraram camisetas e foram tema de marchas virtuais em sua defesa. Para muitos ativistas, a popularidade é uma oportunidade para transformar a comoção em ação. Já existem projetos de lei que propõem a criação do "Dia Nacional do Caramelo", celebrado em 12 de agosto, em uma homenagem ao cão que não tem raça, mas tem o Brasil inteiro como casa. A data serve para lembrar que esses animais não são simplesmente "sem dono", mas sim vítimas de uma sociedade que abandona, negligencia e invisibiliza.
No fim da reportagem, a constatação é de que o problema não é dos cães, mas dos humanos. Enquanto o poder público não adotar políticas sérias, os caramelos continuarão a viver entre a mata e a cidade, como esperança de que alguém, algum dia, olhe para eles.



