Amputações por diabetes sobem 32,8% em Campinas e atingem maior nível em 5 anos
Amputações por diabetes sobem 32,8% em Campinas

Aumento de 32,8% nas amputações por diabetes

As amputações decorrentes do diabetes mellitus na região de Campinas (SP) cresceram 32,8% em 2025, atingindo o maior patamar dos últimos cinco anos. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo obtidos pelo g1 mostram que foram realizados 591 procedimentos no ano passado, contra 445 em 2024. O índice supera todos os registros desde 2020, considerando os municípios que compõem o Departamento Regional de Saúde (DRS) VII.

Enquanto as amputações provocadas pelo diabetes avançaram de forma significativa, as relacionadas a outras doenças, neoplasias e malformações tiveram crescimento mais discreto, passando de 1.048 para 1.087 casos (3,7%). Já os procedimentos decorrentes de causas acidentais caíram de 163 para 146, redução de 10,4%. Com isso, os dados indicam que o aumento observado em 2025 foi impulsionado principalmente pelas complicações do diabetes.

Pés e dedos são os mais afetados

Considerando todas as causas de amputações, o levantamento revela que os membros inferiores são os mais atingidos. Entre 2020 e 2025, foram registradas 3.819 amputações de pé e tarso (conjunto de ossos entre o tornozelo e o mediopé), 3.508 amputações de dedos, 1.202 desarticulações de dedos, 111 desarticulações de outros membros inferiores e 59 desarticulações de outros membros superiores. As amputações de pés, tornozelos e dedos representam cerca de 80% dos 9.148 procedimentos contabilizados no período.

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Em 2025, as amputações de pé e tarso chegaram a 724 casos, acima dos 611 registrados em 2024. As amputações de dedos também cresceram, passando de 194 para 209. É importante distinguir os termos: amputação é a retirada cirúrgica de parte de um membro cortando o osso, enquanto desarticulação é um tipo específico em que o membro é retirado pela articulação, sem serrar o osso.

Idosos concentram a maioria dos casos

O perfil etário mostra que os idosos são os mais afetados, independentemente da causa. Pessoas com 60 anos ou mais responderam por 5.532 do total de amputações entre 2020 e 2025, o equivalente a cerca de seis em cada dez casos. A faixa com maior número foi a de 75 anos ou mais, com 1.711 cirurgias, seguida pelos grupos de 65 a 69 anos (1.441) e de 60 a 64 anos (1.269). Os números mostram ainda que a incidência cresce progressivamente com a idade: enquanto a faixa de 20 a 24 anos registrou 115 amputações, entre pessoas com 75 anos ou mais esse total foi quase 15 vezes maior.

Total de amputações também cresce

Considerando todas as causas – diabetes, outras doenças, neoplasias, malformações, causas acidentais e não acidentais, incluindo cirurgias eletivas preventivas – o número de amputações na região de Campinas cresceu em 2025. Foram registrados 1.824 procedimentos, frente a 1.656 em 2024. O volume é o maior da série iniciada em 2020. Na comparação com o primeiro ano do levantamento, quando foram contabilizadas 1.238 amputações, o crescimento chega a cerca de 47,3%.

Por que o diabetes leva à amputação?

Segundo a endocrinologista Maria Beatriz Dias, do Hospital Vera Cruz, a amputação não é uma consequência inevitável do diabetes, mesmo em casos de doença mal controlada. Ela explica que o procedimento costuma ser o desfecho de uma sequência de complicações. "O paciente com diabetes descontrolado tem uma perda da sensibilidade no local. Então, ele não percebe que tem uma ferida no pé, por exemplo", afirma.

A médica explica que o diabetes pode causar lesões nos nervos (neuropatia) e na circulação, principalmente nos pés. Pequenos machucados passam despercebidos e evoluem para infecções graves. "Como a pessoa não sente, ela se machuca e não percebe. Como é um local com má circulação, quando vai perceber a lesão normalmente é por um odor muito forte, e já está uma infecção enorme", detalha. Os pés concentram a maior parte das amputações porque, além da circulação comprometida, muitas pessoas deixam de examiná-los no dia a dia, especialmente idosos e obesos.

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Fatores que explicam o aumento

Para Maria Beatriz, o crescimento dos casos é resultado de um conjunto de fatores. Entre eles: envelhecimento da população (as complicações do diabetes levam muitos anos para aparecer), mais pessoas vivendo por mais tempo com diabetes (aumentando o tempo de exposição), diagnóstico tardio (alguns pacientes descobrem a doença apenas quando já apresentam complicações graves), controle inadequado da glicemia (diabetes costuma ser silencioso), falta de exame regular dos pés (o acompanhamento deve incluir avaliação dos pés em todas as consultas), dificuldade de acesso a especialistas e demora para procurar atendimento. "O diabetes é uma doença que não causa problemas a curto prazo. Essas lesões na circulação e nos nervos acontecem em 10, 20, 30 anos", explica.

Como prevenir a amputação

A principal forma de prevenção, de acordo com a endocrinologista, é controlar adequadamente o diabetes e adotar cuidados diários com os pés, especialmente entre idosos e pessoas que já apresentam neuropatia. "Se você não é diabético, ou não sabe, precisa investigar se é. Se você é diabético, tem que controlar muito bem a glicemia e examinar os pés diariamente."

Entre as orientações destacadas pela especialista estão: não andar descalço; usar calçados confortáveis, evitando sapatos que apertem os pés; verificar o interior do sapato antes de calçá-lo; examinar os pés todos os dias; não tentar tratar feridas em casa; manter acompanhamento médico regular, com avaliação dos pés nas consultas; e parar de fumar, já que o cigarro agrava as complicações do diabetes. "Tem paciente que tem uma neuropatia tão grave que calça um sapato e, às vezes, tem uma pedrinha dentro e não percebe", exemplifica. Ela ressalta ainda que a participação da família é importante, principalmente no cuidado com idosos que têm dificuldade para examinar os próprios pés ou realizar os cuidados diários.