USDA retoma importação de gado do México; JBS e Marfrig disparam
USDA retoma importação de gado do México; ações disparam

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) anunciou, na última sexta-feira (24), que iniciará a retirada gradual da proibição sobre a importação de gado vivo do México, imposta há mais de um ano para conter a disseminação da mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo (New World Screwworm – NWS). A medida é aguardada pelo mercado como um catalisador para as processadoras de carne, especialmente JBS e Marfrig, que operam nos EUA.

Reação do mercado e impactos imediatos

O JPMorgan afirmou que essa era um dos principais catalisadores aguardados para JBS (BDR: JBSS32) e Marfrig (MBRF3). Na sessão de segunda-feira, as ações reagiram com força: MBRF3 subiu 5,19% (R$ 15,61) e JBS saltou cerca de 8% (US$ 13,26) na Bolsa de Nova York. Na avaliação do banco, a medida pode sinalizar que o ciclo do setor está próximo do fundo, após empresas terem reduzido capacidade de processamento diante da escassez de gado.

Segundo as estimativas da instituição, cada aumento de 1 ponto percentual na margem Ebitda das operações de carne bovina nos Estados Unidos eleva o Ebitda consolidado da JBS em 4,6% e o da Marfrig em 5,4%. A margem Ebitda é calculada como lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações sobre receita líquida.

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Histórico da importação mexicana

Antes do embargo, o México era um fornecedor estrutural da cadeia de gado de reposição dos EUA. Na década anterior ao fechamento da fronteira, em novembro de 2024, o país exportava, em média, 1,18 milhão de cabeças de gado por ano para os EUA. Considerando os últimos 35 anos, a média foi de 1,12 milhão de animais anuais, equivalente a cerca de 3,4% do total de bezerros produzidos nos Estados Unidos. Uma breve reabertura em 2025 teve duração limitada e permitiu a entrada de apenas 230 mil cabeças antes que a fronteira fosse novamente fechada.

Como a retomada ocorrerá de forma gradual — inicialmente com apenas um posto de fronteira e expansão ao longo de setembro — e ainda há casos ativos da praga no Texas, o JPMorgan acredita que o fluxo histórico de mais de 1 milhão de animais por ano dificilmente será retomado antes de 2027. No curto prazo, o impacto tende a ser mais psicológico sobre os preços futuros do que efetivo na oferta de gado.

Impacto para JBS e Marfrig

O JPMorgan considera a decisão positiva para ambas as processadoras. Os estoques de gado nos EUA estão próximos do menor nível em 75 anos, enquanto os preços do boi gordo e da carne bovina atingem recordes, comprimindo as margens das empresas e levando ao fechamento de capacidade industrial, como ocorreu em uma planta da Tyson, em Nebraska, e em linhas de produção da própria JBS. Na visão do banco, a retomada, mesmo que parcial, da entrada de gado mexicano tende a aliviar a escassez de matéria-prima, melhorar gradualmente a utilização das plantas e ampliar as margens das processadoras.

Em relatório assinado pelos analistas Henrique Brustolin e J. Ricardo Rosalen, o Bradesco BBI avalia a notícia como positiva para os frigoríficos de carne bovina nos EUA, mas destaca que ainda é cedo para adotar uma visão mais otimista para os resultados do segmento. "Qualquer oferta adicional de gado é relevante neste ponto do ciclo, especialmente porque as margens dos frigoríficos estão em níveis historicamente baixos. No entanto, o impacto nos resultados deve ser mais gradual do que a notícia sugere." Segundo o BBI, a JBS deve ser a primeira beneficiada, dada sua exposição ao Arizona, mas o ganho mais relevante para JBS e MBRF dependerá da reabertura de Santa Teresa e Columbus. Mesmo em um cenário de normalização total das importações mexicanas, o BBI prevê que a utilização da capacidade de abate de gado confinado nos EUA subiria para cerca de 84%, ainda abaixo de níveis historicamente mais confortáveis. Portanto, a medida ajuda, mas não elimina a escassez de gado nos EUA, especialmente porque a disponibilidade doméstica deve continuar encolhendo à medida que os produtores retêm mais animais para recompor o rebanho.

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Visão do Itaú BBA

O Itaú BBA, por sua vez, avalia que, em conjunto com os ajustes operacionais em curso no setor de processamento de carne bovina, a medida deverá contribuir para uma recuperação marginal das margens de processamento nos EUA, ao gerar um aumento na oferta de gado na região. Na avaliação dos analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, "a medida não altera o cenário desafiador que a indústria de carne bovina dos EUA enfrenta, e melhorias significativas na rentabilidade ainda dependem da concretização da inflexão do ciclo pecuário nos próximos anos".

O banco mantém uma visão cautelosa para o crescimento dos lucros, diante da desaceleração da atividade econômica e da perspectiva de juros elevados por um período prolongado. A expectativa é que o ciclo pecuário nos EUA comece a se reverter apenas em 2027 ou 2028, quando a oferta doméstica de gado deverá se recuperar.