Dezenas de manifestantes, entre familiares, amigos e imigrantes senegaleses, realizaram um protesto na manhã desta segunda-feira (27) em frente à Creche Luz do Brás, no Centro de São Paulo. Eles exigem justiça e responsabilização pela morte do pequeno Abidulaye Dieng, de apenas 1 ano e 4 meses, que faleceu asfixiado na última quarta-feira (22) após prender a cabeça no vão entre uma barra de ferro e o espelho de uma das salas da unidade.
Protesto por justiça e transparência
Com faixas, cartazes e camisetas, os participantes cobraram esclarecimentos sobre as circunstâncias da tragédia. "O nosso pedido hoje é pedido justiça, é de responsabilização, de um abandono de uma criança incapaz. A criança foi deixada durante seis minutos e ele agonizou até morrer", afirmou Mariama Bintu Bah, membro do Conselho Municipal de Imigrantes. A representante dos familiares também criticou a forma como a direção da escola comunicou a morte: "Pegar sua criança, dar banho, deixar ela para ir à escola e você receber um texto, nem uma ligação, um texto que eles passam, você chega e encontra ele em óbito. Está doendo! E eles não conseguem expressar a dor que eles sentem por causa do idioma, então estamos tristes".
Denúncias de falta de funcionários
Mães de outros alunos que participaram do ato afirmam que já haviam alertado a direção sobre a insuficiência de profissionais. Lhayss Rodrigues de Sousa, vendedora ambulante, disse: "Desde o dia em que o neném morreu, a creche não para de funcionar. Até a sala onde o neném foi morto. Outras crianças estavam lá, não foi retirado o material que a criança morreu, continua funcionando. Isso é um absurdo". Ela também relatou que a professora da sala do bebê estava doente e afastada, e muitas vezes ficava sozinha com 12 a 15 crianças. "Eu vim durante quatro vezes conversar com a diretora, reclamar que ela não poderia ficar sozinha, que ela estava sobrecarregada".
Investigação policial em andamento
A Polícia Civil já recebeu as quatro horas de imagens das câmeras de segurança da creche e está analisando o material. Com base nas imagens, novos depoimentos serão tomados. A expectativa é concluir o inquérito em menos de 30 dias. Na quinta-feira (23), as imagens foram requisitadas após denúncia de que, no momento do acidente, as crianças estariam sem supervisão porque funcionários participavam de uma festa de aniversário. Cinco pessoas já foram ouvidas, incluindo duas funcionárias, e os relatos indicam que a comemoração ocorreu antes do acidente. O caso foi registrado como homicídio culposo e é investigado pelo 8º Distrito Policial (Brás).
Reação da Prefeitura e da Secretaria de Educação
A Secretaria Municipal da Educação informou que instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos. "Se forem confirmadas irregularidades, serão adotadas as providências cabíveis, incluindo o possível descredenciamento da organização parceira responsável pela unidade." A pasta também afirmou que o Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA) acompanha a família desde as primeiras horas, com psicólogo e assistente social, e que a sala onde ocorreu o incidente está interditada para análise técnica. O CEI segue em funcionamento para as demais crianças.
Depoimento do pai
O pai do menino, Ibrahima Dieng, vendedor senegalês que vive no Brasil há oito anos, contou que deixou o filho na creche por volta das 7h30. Cerca de uma hora e meia depois, recebeu uma ligação informando o acidente. "Hoje foi lá na escola e depois ele fala ligar (...) chegou, ele fala 'cadê criança?', esperar e depois ele morreu", disse, emocionado. A mãe do menino passou mal ao receber a notícia. "Chora muito... é triste, muito. Vai ser muito difícil recuperar."
O protesto desta segunda-feira reforça a cobrança por justiça e por medidas que evitem novas tragédias. A comunidade senegalesa e os demais pais esperam que as investigações tragam respostas e responsabilização.



