Há mais de três meses, moradores de uma vila na Freguesia, na Zona Oeste do Rio, convivem com a falta de água encanada. O desabastecimento, que começou de forma pontual e se agravou, já ultrapassa 90 dias de transtornos para as famílias da região, que dependem da rede pública de distribuição para atividades básicas do dia a dia.
No início, a água faltava apenas em alguns horários. Depois, as falhas se tornaram diárias e, por fim, completas em diversos pontos da vila. Moradores contam que a medida que o problema se prolongava, a convivência com a seca nas torneiras virou rotina, exigindo soluções improvisadas.
Rotina de sacrifícios
A espera pela água transforma as madrugadas em um momento de tensão. Muitas famílias acordam por volta das 4h para tentar captar água em baldes e galões, quando a pressão na rede aumenta. A prática, porém, não garante o abastecimento para todos, e alguns moradores relatam que chegam a ficar dias sem qualquer gota de água.
Para suprir a necessidade imediata, os moradores recorrem a garrafões de água mineral, comprados a preços elevados no comércio local. Uma moradora da vila, que prefere não se identificar, afirmou que o gasto extra compromete o orçamento familiar, que já é apertado. Ela conta que a situação já a fez ficar sem água para cozinhar em mais de uma ocasião.
Impacto no comércio e nos serviços essenciais
O impacto da falta de água vai além das residências. Pequenos comércios, como bares, padarias e mercados, enfrentam dificuldades para manter a higiene e o funcionamento. Em uma padaria, a produção de pães precisou ser reduzida, pois a água é insuficiente para lavar as bancadas e os utensílios. O prejuízo é sentido no caixa, que registra queda no movimento.
Uma escola pública nas proximidades chegou a suspender as aulas em dois dias da semana, porque os banheiros estavam sem condições de uso. O caso foi relatado pela direção da unidade à Secretaria Municipal de Educação, que enviou água mineral para atender os alunos, mas a medida é considerada paliativa.
Uma unidade de saúde do bairro também foi afetada. A equipe médica precisou reduzir o número de atendimentos e transferir alguns pacientes para outras unidades, devido à impossibilidade de higienizar corretamente as instalações.
O que diz a concessionária
Procurada pela reportagem, a concessionária Águas do Rio, responsável pelo abastecimento na região, informou que o problema é decorrente de obras de manutenção e ampliação da rede de distribuição. A empresa afirmou que equipes técnicas estão atuando no local e que a previsão é que o fornecimento seja normalizado gradualmente.
Em nota, a concessionária disse que os moradores que ainda não tiveram o abastecimento regularizado podem solicitar caminhões-pipa pelo canal de atendimento da empresa. A empresa ainda pediu compreensão e reforçou que está monitorando os pontos críticos da Freguesia.
No entanto, a previsão de conclusão das obras não foi informada. A concessionária apenas destacou que as intervenções são complexas e que, em algumas ruas, será necessário substituir trechos de tubulação, o que pode gerar novos cortes temporários no fornecimento.
Moradores cobram solução definitiva
Diante da demora, a associação de moradores do bairro organizou um abaixo-assinado para ser entregue à Prefeitura do Rio e à Agência Reguladora de Serviços Públicos. O documento reúne relatos de diversas famílias que afirmam estar sendo prejudicadas pela falta de água.
Os moradores também cobram a realização de uma audiência pública para discutir o problema e definir um cronograma claro para as obras. Eles afirmam que, sem uma providência urgente, a situação pode se repetir no verão, quando o consumo de água aumenta e a pressão na rede fica ainda mais comprometida.
Além disso, o caso foi levado ao Ministério Público Estadual, que abriu um procedimento para apurar o descumprimento das normas de abastecimento e a eventual violação dos direitos dos consumidores.
Alternativas emergenciais
Enquanto a solução definitiva não chega, os moradores se organizam para minimizar os efeitos da seca. Alguns instalaram cisternas em suas casas para captar água da chuva, mas a quantidade armazenada é insuficiente para abastecer toda a família por longos períodos.
Outros dependem exclusivamente dos caminhões-pipa. A Defesa Civil municipal informou que mantém uma programação de distribuição emergencial, mas não confirmou se a frequência é suficiente para atender toda a demanda. Relatos de moradores indicam que os caminhões passam na vila apenas duas vezes por semana, o que não é suficiente para encher as caixas d'água de todas as residências.
A situação também preocupa profissionais de saúde, que veem risco de proliferação de doenças como a dengue, devido ao acúmulo de água em recipientes improvisados. Moradores, porém, afirmam que não têm outra alternativa.



