A frase do coordenador do Centro de Trauma do Hospital Estadual Alberto Torres, Marcelo Pessoa, resume a gravidade do momento: "A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue." A declaração abre a terceira reportagem da série especial do RJ2 sobre a chamada "epidemia das motos" no Rio de Janeiro. Os números explicam o drama: o Corpo de Bombeiros realiza, em média, 144 atendimentos por dia a vítimas de acidentes com motocicletas — um socorro a cada dez minutos.
Somente de janeiro a junho deste ano, a corporação superou a marca de 25 mil resgates envolvendo motos, o que representa uma média de seis ocorrências por hora. As motos já respondem por 75% de todos os resgates feitos pelos bombeiros no estado, e o perfil dos casos é de alta complexidade.
O dia a dia dos bombeiros no resgate a motociclistas
A equipe de reportagem acompanhou um plantão dos bombeiros e viu de perto a rotina de acionamentos. O rádio avisou sobre uma vítima desacordada em um acidente de moto. A ambulância partiu em seguida, enfrentou o trânsito congestionado e chegou ao local para iniciar o socorro. Enquanto os profissionais ainda trabalhavam no resgate, a central já havia recebido novas chamadas: outras três ocorrências com motociclistas entraram na fila de atendimento.
O tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros, explicou que a moto oferece zero proteção em caso de colisão. "Na moto infelizmente não há absorção da energia do acidente. Todo o impacto vai diretamente no corpo do próprio motociclista", afirmou.
A pressão das entregas e os riscos no trânsito
Os motoboys são a face mais visível dessa epidemia. Hugo Souza seguia para uma entrega quando se envolveu em uma colisão. "Tava trabalhando, tava até com entrega. Mandei até o menino levar a entrega porque senão ia acabar atrasando", contou. Leonardo César, outro motoboy atendido pela equipe, também relembrou o momento do acidente com uma frase que traduz a rotina: "A gente tá na correria para levar o pão de cada dia."
Para Contreiras, a pressa combinada com distrações é um fator decisivo. "Muitas vezes o motociclista quer chegar mais rápido, ultrapassa sinal vermelho, sobe na calçada ou desvia a atenção para olhar o GPS", alertou. O oficial destacou ainda o perigo do celular ao guidão: "Se ele ficar apenas um segundo olhando para o celular a 60 km/h, percorre cerca de 17 metros praticamente às cegas."
Quem são as vítimas e o custo dos acidentes
As emergências públicas vivem o reflexo direto dessa realidade. No Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, referência no atendimento a traumas, a maioria dos pacientes é formada por homens jovens, entre 20 e 29 anos. O coordenador do Centro de Trauma, Marcelo Pessoa, detalhou que cada vítima exige uma resposta ampla do hospital. "São cirurgias de neurocirurgia, cirurgia vascular, ortopedia, cirurgia plástica... praticamente todas as especialidades do hospital participam do atendimento", disse.
Além do custo financeiro, Pessoa chamou atenção para o impacto social dos acidentes. "Esses pacientes precisam de meses de recuperação e isso afeta toda a família", afirmou. A longa internação também desorganiza a rotina de quem depende do paciente e pressiona a capacidade instalada da rede pública.
Hospitais na capacidade máxima
No Hospital Municipal Barata Ribeiro, na Mangueira, referência em ortopedia na capital, a demanda cresceu tanto que a unidade precisou abrir mão do serviço de geriatria para ampliar o atendimento ortopédico. São cerca de 400 cirurgias por mês, grande parte delas motivada por acidentes com motos. O caso de Wesley Nóbrega é típico: ele fraturou o joelho, passou por cirurgia e hoje repensa o uso da motocicleta. "Vai gastar mais tempo e mais dinheiro, mas isso aqui acho que não compensa", ponderou.
O efeito cascata chega a toda a rede municipal. O secretário municipal de Saúde, Rodrigo Pinto, afirmou que pacientes que aguardam cirurgias eletivas acabam tendo os procedimentos adiados, porque os casos de trauma têm prioridade. "Esse volume vem crescendo e ocupando leitos que eram usados para outros pacientes", comentou. No Hospital Lourenço Jorge, o diretor Bruno Guimarães estima que cerca de 80% das cirurgias decorrentes de acidentes de trânsito na unidade envolvem motociclistas.
Prevenção é a única saída
Para Marcelo Pessoa, o sistema de saúde vive uma corrida contra o tempo. "A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue, o sangue desses pacientes que chegam com lesões muito complexas", desabafou. Na avaliação do médico, a solução não está apenas em ampliar hospitais, mas em evitar que novos casos cheguem às emergências.
Ele defende mais educação no trânsito e o respeito às leis como medidas urgentes. "Cada imprudência que economiza alguns segundos nas ruas pode representar meses — ou até anos — de recuperação dentro de um hospital", concluiu. Enquanto isso, bombeiros e equipes médicas seguem enxugando sangue, em uma rotina que já mudou o perfil do atendimento público de saúde no Rio.



