Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) utilizaram análise genética para identificar duas espécies de pepinos-do-mar brasileiros em cargas ilegais apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo, que analisou três apreensões realizadas pelo Ibama em 2023, revelou a presença de aproximadamente 1.500 exemplares das espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, destinados ao mercado asiático e europeu.
DNA revela espécies em cargas processadas
As cargas, compostas por duas malas de passageiros que seguiriam para a China e uma caixa com destino à Itália, continham pepinos-do-mar secos e processados, inviabilizando a identificação visual. A solução foi recorrer ao DNA barcoding, técnica que funciona como um código de barras molecular. "Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie (Holothuria grisea) disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência e só então confirmar a identidade dos animais apreendidos", explica a pesquisadora Auany Camila Fantinelli.
A técnica permite identificar com precisão a espécie, mas ainda não determina o local exato de captura. No entanto, os pesquisadores consideram extremamente provável que os animais tenham sido retirados da costa brasileira, já que ambas as espécies ocorrem naturalmente no litoral do país e não há registros de produção comercial no Brasil.
Importância ecológica e pressão comercial
Os pepinos-do-mar desempenham papel fundamental na saúde dos ecossistemas marinhos. Alimentam-se de sedimentos, reciclam nutrientes e oxigenam o fundo, beneficiando toda a biodiversidade bentônica. "Quando uma população de pepinos-do-mar é removida de forma intensiva, esse serviço ecológico deixa de acontecer. O sedimento fica menos oxigenado, há acúmulo de matéria orgânica e toda a biodiversidade que depende desse ambiente pode ser afetada", alerta Auany.
A demanda internacional, especialmente da Ásia, onde o produto é considerado iguaria e usado na medicina tradicional chinesa, impulsiona o comércio ilegal. Apesar de classificadas como "Menos Preocupantes" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), os cientistas destacam que a avaliação da Holothuria grisea não é atualizada desde 2010, e 65% das espécies de pepinos-do-mar têm dados insuficientes.
Fiscalização e desafios
O estudo aponta que a genética pode ser uma aliada importante na fiscalização, mas não resolve o problema sozinha. "Hoje não sabemos quantos indivíduos existem, como essas populações estão distribuídas nem se estão diminuindo ou se recuperando. Sem essas informações é impossível estabelecer um ponto de partida para avaliar o impacto da exploração", afirma Auany.
Os pesquisadores observam redução populacional em áreas como Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, ao longo de 30 anos de monitoramento. Ricardo Utsunomia, coautor do estudo, cita um caso emblemático: em outubro de 2025, um homem foi preso transportando quase 60 quilos de pepinos-do-mar. O quilo pode alcançar cerca de 1.500 euros no mercado asiático, mas a multa aplicada foi de R$ 6.720, e o suspeito foi liberado após pagar fiança de R$ 2 mil. "Esse caso ilustra bem como a combinação entre fiscalização limitada, ausência de regulamentação e punições relativamente brandas pode favorecer a continuidade desse comércio ilegal", avalia Ricardo.
Caminhos para a conservação
Iniciativas de cultivo de pepinos-do-mar no Brasil ainda são experimentais e incapazes de atender à demanda. Para os cientistas, impedir que produtos ilegais cheguem ao mercado exige integração entre fiscalização, pesquisas científicas e ferramentas de rastreamento. A ampliação dos bancos genéticos e o monitoramento contínuo das populações são medidas essenciais. "O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de duas espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem do trabalho silencioso desses animais para se manterem equilibrados", conclui Auany.



