O tornado que atingiu Giruá, no Noroeste do Rio Grande do Sul, nesta semana, voltou a colocar o estado no centro do debate sobre tempestades severas. Segundo o Atlas Digital de Desastres, desde 1991 o RS contabiliza ao menos 31 desastres associados a tornados, com 7,6 mil pessoas diretamente atingidas e aproximadamente R$ 68 milhões em perdas materiais. O fenômeno, que durou poucos minutos, destruiu casas, derrubou árvores e matou animais na zona rural do município. A assistente social Daiane de Oliveira Nunes, que acompanhou a destruição, descreveu o susto: "A gente não imagina que vai acontecer aqui próximo da gente, aqui no Rio Grande do Sul. É um fenômeno bem assustador. Fiquei bem chocada".
O corredor de tornados da América do Sul
O Rio Grande do Sul está inserido no chamado corredor de tornados da América do Sul, uma das faixas do planeta mais propícias à formação desse tipo de fenômeno, atrás somente da região central dos Estados Unidos. Nessa área do continente, diferentes sistemas atmosféricos se encontram com frequência. O principal fator é o choque entre o ar quente e úmido originário da Amazônia e a massa de ar frio que sobe do sul do continente. Quando os ventos mudam de direção e velocidade conforme a altitude, a tempestade começa a girar, dando origem ao tornado — a coluna de ar em rotação que liga a base da nuvem ao solo. Em poucos minutos, os ventos podem ultrapassar 300 quilômetros por hora.
O climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a ocorrência não é rara no estado. "A gente precisa das nuvens de tempestade severa, que são as cumulonimbus. O Rio Grande do Sul, nas últimas semanas, teve dezenas dessas tempestades muito desenvolvidas. É só a partir de uma nuvem como essa que pode surgir tornado ou tornados", afirma. Ele acrescenta que a probabilidade aumenta com o contraste térmico: "Aumenta a chance de ocorrência de tornado no Rio Grande do Sul quando você tem maior contraste, uma frente quente, com instabilidade elevada e, por consequência, chuva e granizo associados".
Histórico de tornados no estado
O evento recente em Giruá entra para uma longa lista de tornados que marcaram o RS nas últimas décadas. Em dezembro de 2003, Antônio Prado viveu um dos episódios mais graves: o tornado deixou cinco mortos e oito feridos. Dois anos depois, em setembro de 2005, Muitos Capões teve casas destruídas por ventos que passaram de 180 km/h. Em abril de 2014, Tapejara e Erebango sofreram com um tornado que deixou cerca de 3,5 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas; em Erebango, um homem morreu tentando proteger o filho.
Em março de 2017, São Francisco de Paula foi atingida: 110 casas ficaram destruídas, outras 700 foram danificadas e quase mil pessoas precisaram sair de suas residências. A reconstrução levou anos. Já em junho de 2018, uma sequência de tornados atingiu cidades do Norte gaúcho — Ciríaco, Coxilha, Água Santa e Ronda Alta. Na ocasião, os ventos destruíram aviários, derrubaram silos, tombaram carretas e provocaram duas mortes. Em 2024, foram registrados tornados em áreas rurais de Gentil e São Sepé. Em julho de 2026, o fenômeno atingiu Giruá, no Noroeste do estado, em mais um capítulo dessa trajetória.
Mudanças climáticas e tempestades severas
Para o meteorologista Maurício Ilha de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), há indícios de que o aquecimento do planeta favoreça a ocorrência de tempestades severas. "A percepção é de que agravem, pois há uma atmosfera mais aquecida. É uma atmosfera que apresenta mais alguns dos ingredientes que favorecem a formação de tempestades severas, inclusive tornados, que tendem a se intensificar", diz. Ele cita como exemplos o aumento da umidade disponível na atmosfera e a intensificação das correntes de jato — ventos fortes que atuam em altitude.
Esses fatores podem tornar o Sul do Brasil ainda mais exposto a eventos extremos. O encontro entre massas de ar com características distintas, potencializado pela mudança climática, cria condições mais propícias para que nuvens de tempestade atinjam o estágio de cumulonimbus e gerem tornados.
Previsão ainda é desafio
Apesar dos avanços da meteorologia, prever o ponto exato em que um tornado tocará o solo continua sendo uma dificuldade. Os modelos conseguem indicar quando o ambiente está favorável para tempestades severas, mas a localização precisa do fenômeno permanece incerta. Por isso, especialistas recomendam acompanhar os alertas meteorológicos e adotar medidas preventivas.
"O que sabemos é que temos que estar atentos às previsões. Precisamos pesquisar mais sobre isso, entender quais as características deles nessa região. Entender isso é o que nos habilita a nos preparar melhor para eles", afirma o meteorologista Maurício Ilha de Oliveira.
Linha do tempo de registros no RS
- Dezembro de 2003: tornado em Antônio Prado deixa cinco mortos e oito feridos.
- Setembro de 2005: Muitos Capões registra destruição de casas com ventos acima de 180 km/h.
- Abril de 2014: Tapejara e Erebango têm cerca de 3,5 mil desalojados ou desabrigados; uma morte é registrada.
- Março de 2017: São Francisco de Paula tem 110 casas destruídas, 700 danificadas e quase mil pessoas fora de casa.
- Junho de 2018: sequência de tornados atinge cidades do Norte do RS e provoca duas mortes.
- 2024: tornados em áreas rurais de Gentil e São Sepé.
- Julho de 2026: tornado atinge Giruá, no Noroeste do estado.



