Intolerância: lições de Jorge Amado e Erico Verissimo
Intolerância: lições de Jorge Amado e Erico Verissimo

Em um mundo cada vez mais polarizado, onde o discurso de ódio encontra eco nas redes sociais e na política, a literatura de Jorge Amado e Erico Verissimo surge como um farol de humanismo. Mais do que autores consagrados, esses dois gigantes das letras brasileiras deixaram um legado de respeito à diversidade e combate ao preconceito que permanece profundamente atual. Suas obras, escritas em contextos históricos distintos, convergem em um ponto essencial: a defesa da tolerância como alicerce da convivência democrática.

Jorge Amado: a Bahia como resistência cultural

Nascido em Itabuna, no sul da Bahia, em 1912, Jorge Amado é um dos escritores brasileiros mais traduzidos no mundo. Sua vasta produção literária, que inclui clássicos como Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Capitães da Areia, transpira a atmosfera baiana e dá voz a personagens marginalizados. Mas o que muitos leitores talvez não percebam é como sua obra funcionou como um instrumento de luta contra a intolerância em suas múltiplas formas.

Amado foi um militante político desde jovem, filiando-se ao Partido Comunista e enfrentando a repressão da ditadura de Getúlio Vargas. Exilado em diversos países, ele não abandonou a escrita e transformou a experiência do desterro em matéria-prima para seus romances. Em Tenda dos Milagres, por exemplo, ele aborda de forma contundente o racismo científico e a apropriação cultural, temas que ainda hoje geram debates acalorados.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Além disso, sua obra é um mergulho na cultura afro-brasileira, especialmente no candomblé. Em um período em que as religiões de matriz africana eram criminalizadas e estigmatizadas, Amado as retratou com respeito e profundidade, ajudando a desconstruir preconceitos. Ele fazia questão de enfatizar que a Bahia era o coração pulsante da mestiçagem brasileira, onde diferentes etnias e tradições se entrelaçavam para formar uma identidade rica e plural.

O escritor também foi um homem de gestos concretos. Ao longo da vida, apoiou iniciativas culturais e sociais que promoviam a inclusão, sempre aberto ao diálogo com os mais diversos setores da sociedade. Sua casa no Rio de Janeiro, onde viveu com a esposa Zélia Gattai, era ponto de encontro de artistas, intelectuais e gente comum, independentemente de credo, cor ou classe social. Essa postura de acolhimento é um exemplo de tolerância na prática, algo que os tempos atuais tanto necessitam.

Erico Verissimo: literatura como ponte para a empatia

Já Erico Verissimo, nascido em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, em 1905, construiu uma trajetória marcada pela busca de compreensão do ser humano. Sua obra-prima, O Tempo e o Vento, é uma vasta crônica da formação do Rio Grande do Sul, mas também um painel dos conflitos que atravessam a história brasileira. Verissimo tinha a habilidade rara de criar personagens complexos, com virtudes e defeitos, e por meio deles explorar as ambiguidades da natureza humana.

Em seus livros, a intolerância aparece com frequência como tema central. Em Incidente em Antares, por exemplo, o autor faz uma sátira mordaz ao autoritarismo e ao conservadorismo de uma pequena cidade, mostrando como o medo e o preconceito podem levar a comunidade ao absurdo. Já em Olhai os Lírios do Campo, ele discute questões existenciais e a responsabilidade social do indivíduo, antecipando debates sobre ética e solidariedade que seguem relevantes.

Verissimo também se posicionou em momentos cruciais da história do país. Durante a Segunda Guerra Mundial, após uma temporada nos Estados Unidos, escreveu artigos e deu entrevistas defendendo a democracia e o combate ao nazifascismo. Mais tarde, durante a ditadura militar brasileira, manteve uma postura crítica e solidária com os perseguidos políticos, mesmo não sendo um militante orgânico. Em suas memórias, destacou a importância de se colocar no lugar do outro, exercício de empatia que considerava fundamental para a vida em sociedade.

Um aspecto notável de Verissimo foi sua preocupação com a formação de leitores críticos. Acreditava que a literatura tinha o poder de transformar mentalidades e que o hábito da leitura era essencial para a construção de uma cidadania plena. Essa crença se manifestou em seu trabalho como editor e em suas incontáveis palestras, nas quais incentivava jovens a descobrir o prazer dos livros e a questionar dogmas.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

O que esses dois autores nos ensinam hoje

Em pleno século XXI, a intolerância não desapareceu; apenas se reconfigurou. Ela se manifesta em ataques a minorias, em discursos de ódio online e em políticas de exclusão. O que Amado e Verissimo nos oferecem é um contraponto: a convicção de que a diversidade é um valor inegociável e de que o outro, mesmo com opiniões divergentes, merece respeito.

Amado nos ensina a enxergar a beleza na mistura, a celebrar as diferenças como fonte de riqueza cultural. Verissimo, por sua vez, nos convida a olhar além das aparências e a descobrir a humanidade que existe em cada pessoa. Ambos compreenderam que a intolerância nasce do desconhecimento e do medo, e que a melhor arma contra ela é o conhecimento mútuo.

Por isso, reler esses autores hoje é mais do que um exercício de nostalgia: é um ato de resistência. Em um ambiente de bolhas digitais e discursos polarizados, suas obras nos lembram que a literatura pode ser um espaço de encontro, onde nossas certezas são desafiadas e nossas empatias são ampliadas. Que esses exemplos inspirem educadores, gestores públicos e leitores a construir pontes, em vez de muros.

Conclusão

Jorge Amado e Erico Verissimo não são apenas estandartes da literatura nacional; são testemunhas de que a arte pode e deve se colocar ao lado da humanidade. Seus livros permanecem vivos, assim como as lições de tolerância que transmitiram, tanto em suas páginas quanto em suas condutas. Em tempos de intolerância, revisitar esses gigantes é redescobrir o caminho da convivência pacífica.