O avanço da crise climática já provoca transformações profundas nos principais biomas brasileiros, especialmente no Pantanal e na Amazônia. No Pantanal, períodos de seca cada vez mais longos reduzem drasticamente a disponibilidade hídrica, alteram o comportamento da fauna e pressionam a atividade econômica local. Na Amazônia, cientistas monitoram o risco de a floresta atingir um chamado "ponto de não retorno", quando perde a capacidade de se regenerar mesmo com a redução dos impactos humanos.
Pantanal: seca histórica e adaptação forçada
A falta de água no Pantanal obriga fazendeiros a buscar soluções emergenciais para manter o rebanho. A pecuária, principal atividade econômica da região, conta com aproximadamente 4 milhões de cabeças de gado. "Você não imagina que o lugar que você vai tá seco já", relata o peão de boiadeiro Moisés da Silva, descrevendo a necessidade de conduzir o gado por longas distâncias em busca de água. Para mitigar o problema, cresce a abertura de poços artesianos nas fazendas, utilizando bombas movidas a energia solar.
Camilla Schweizer, coproprietária e gerente de uma fazenda na região, afirma que a seca aumenta o desgaste dos animais. "O gado tem tido um estresse maior porque ele tem essa necessidade de percorrer muitos quilômetros para chegar até a água. Estamos furando poços para facilitar a vida deles", diz. Segundo ela, atualmente são quatro poços, mas há planos de instalar mais dois ainda este ano.
Mudança na paisagem e ameaça de colapso
Há cerca de 20 anos, as cheias cobriam vastas áreas do Pantanal. Hoje, períodos de estiagem prolongados transformaram a paisagem de regiões antes alagadas. Dados de satélite mostram que, no ano passado, a área coberta por água no Pantanal ficou 56% abaixo da média histórica — o único bioma brasileiro a registrar esse índice negativo.
Essa alteração preocupa cientistas, que estudam o risco de o bioma atingir um "ponto de não retorno". Tasso Azevedo, especialista em clima, explica: "O ponto de não retorno não é quando acabou tudo. É quando você chega numa situação em que o ambiente não é capaz de se recuperar mesmo que você diminua o impacto". Ele destaca que o Pantanal depende da água proveniente da Amazônia, transportada pelos chamados "rios voadores". "A Amazônia também está enfraquecendo esses rios atmosféricos. Mesmo se protegêssemos todo o Pantanal, ele não voltaria mais à condição anterior", alerta.
Impactos na fauna: mudança de hábitos e declínio populacional
A redução da água afeta diretamente os animais. As queixadas, por exemplo, estão alterando seu comportamento diurno. "Elas estão se tornando mais noturnas com o aumento da temperatura", afirma Maria Luisa Jorge, professora da Vanderbilt University e pesquisadora do Pantanal há 15 anos. Já a ariranha sofre com a diminuição das áreas alagadas. Caroline Leuchtenberger, bióloga do Projeto Ariranhas, explica que uma das populações monitoradas no Rio Negro apresentou redução superior a 50% nos últimos anos.
Com menos água, o fogo se torna uma ameaça ainda maior. Em 2024, o Pantanal registrou recorde de queimadas. "O fogo não está só aumentando, mas mudando onde ocorre. O Pantanal está tendo eventos de fogo muito fortes, que tornam a situação ainda mais difícil", reforça Tasso Azevedo.
Amazônia: risco de savanização
Além do Pantanal, a Amazônia, o Cerrado e a Caatinga também enfrentam riscos de atingir o ponto de não retorno. Estudos indicam que o desmatamento combinado ao aquecimento global pode transformar a floresta amazônica em uma área mais seca, semelhante a uma savana. O cientista Carlos Nobre afirma: "Se o desmatamento chegar entre 20% e 25% e o aquecimento global atingir 2 graus, é impossível manter a Amazônia".
Para entender os efeitos da falta de água, pesquisadores montaram um experimento em uma área de floresta nativa em Querência, Mato Grosso. A estrutura utiliza milhares de painéis de plástico para reduzir pela metade a precipitação que chega ao solo, simulando secas extremas. David Galbraith, professor da Universidade de Leeds, explica: "Medimos todos os sinais vitais da floresta com efeito de seca: conteúdo de água no solo, disponibilidade nas plantas, fluxo de seiva nas árvores".
O projeto acompanha a reação das árvores à falta de água prolongada. Galbraith ressalta a frequência crescente de eventos como o El Niño: "Há muito tempo, a frequência era de 20 a 25 anos. Agora está em 7 anos; daqui a pouco será 5, 3 anos. Não dará tempo de a floresta sobreviver". Beatriz Schwantes Marimon, da Universidade do Estado de Mato Grosso, complementa que a falta de água interfere na fotossíntese e no transporte de água, levando à morte mais rápida das árvores.
Investimentos e soluções necessárias
O projeto já recebeu R$ 7 milhões em investimentos. Para Paulo Artaxo, da USP, é urgente reduzir as emissões de combustíveis fósseis e zerar o desmatamento. "Precisamos acabar com a exploração e consumo de combustíveis fósseis o mais rápido possível e zerar o desmatamento da Amazônia. Essas medidas podem reduzir o risco de colapso ou limitar a área afetada", conclui.



