Desde 2005, pesquisadores acompanham a população de onças-pintadas (Panthera onca) na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, em um dos estudos mais longos já feitos com a espécie em todo o mundo. O trabalho, conduzido pelo Instituto Mamirauá em parceria com a organização Panthera, foi publicado no periódico científico Journal of Applied Ecology e confirma que as florestas inundáveis de várzea da Amazônia estão entre os principais refúgios do felino, com algumas das maiores densidades populacionais já registradas. No entanto, o que parecia ser um motivo de celebração esconde um fenômeno preocupante: a redução drástica do número de fêmeas ao longo dos anos.
O levantamento, realizado com armadilhas fotográficas em uma área de mais de 1 milhão de hectares, analisou dados coletados entre 2005 e 2022. Nesse período, a densidade de fêmeas caiu 77%, enquanto a de machos aumentou. O resultado é que o total de onças na reserva não apresentou uma queda clara, o que, segundo os autores, pode dar uma falsa impressão de saúde populacional.
Estabilidade aparente, risco real
Esse padrão é justamente o que mais preocupa os cientistas. "Esse padrão sugere que populações aparentemente estáveis podem estar passando por ameaças importantes, como a redução do número de fêmeas, que são fundamentais para a reprodução e a manutenção da população", afirma Emiliano Esterci Ramalho, diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá e coautor do estudo. "Ao mesmo tempo, esse trabalho deixa claro a importância de longas séries de dados científicos e investimentos de longo prazo em ciência na Amazônia."
A pesquisadora Raíssa Sepulvida, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), da Panthera e da Swansea University, também assina o artigo. Ela ressalta que a várzea amazônica é essencial para a produtividade da região, mas ainda recebe pouca atenção em discussões internacionais sobre conservação. "À primeira vista, a população parecia relativamente estável. Porém, de forma quase silenciosa, o número de fêmeas caiu drasticamente ao longo do tempo, enquanto o de machos aumentou, sendo a maioria deles provenientes de populações externas", explica.
Segundo ela, esse cenário compromete a renovação da população local, já que são as fêmeas residentes que garantem a reprodução. A pesquisadora defende que proteger as fêmeas reprodutoras, aumentar a sobrevivência e a permanência dos filhotes e fortalecer a gestão comunitária são medidas urgentes. "Precisamos agir antes que essas mudanças demográficas sutis se tornem irreversíveis", alerta.
As causas prováveis: caça, imigração e infanticídio
Uma das hipóteses levantadas pelo estudo é que a caça mais frequente de machos favoreça a chegada de novos indivíduos vindos de outras áreas, fenômeno conhecido como imigração. As fêmeas, por sua vez, migram menos, pois tendem a estabelecer territórios menores, próximos aos da mãe. Essa entrada de machos externos, segundo os pesquisadores, também está associada a um aumento na mortalidade de filhotes por infanticídio, quando machos matam filhotes para que as fêmeas voltem a entrar no cio. O resultado é uma queda ainda maior na renovação da população de fêmeas.
Sobrevivência alta, recrutamento baixo
O estudo é considerado o mais longo já realizado com onças-pintadas em qualquer região do planeta. Pela primeira vez, foram produzidas estimativas de sobrevivência e recrutamento da espécie na Amazônia, indicadores essenciais para a compreensão da dinâmica populacional. Os números mostram que a sobrevivência dos adultos é alta, de 0,76 em uma escala de 0 a 1, mas a taxa de entrada de novas fêmeas na população (recrutamento) é de apenas 0,15. Somada à chegada constante de machos vindos de fora, essa baixa reposição de fêmeas pode estar mascarando um declínio real na capacidade reprodutiva da população local.
Duas décadas de monitoramento
O Instituto Mamirauá conduz, desde 2005, o monitoramento de longo prazo de onças-pintadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, com uso de armadilhas fotográficas. Esse banco de dados embasou este e outros estudos publicados sobre a espécie. A pesquisa é considerada a mais longeva sobre onças-pintadas realizada na Amazônia, e os autores destacam a importância de investir em ciência de longo prazo para entender e proteger a biodiversidade da região.



