Diante do aumento da frequência de eventos climáticos extremos, entender o papel das florestas na regulação dos recursos hídricos tornou-se essencial. Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, trouxe evidências concretas: as florestas nativas, que cobrem cerca de 15% do território gaúcho, atuam como barreiras naturais que reduzem o impacto de chuvas intensas e filtram poluentes atmosféricos.
O estudo foi conduzido no Jardim Botânico da UFSM, onde coletores instalados em locais abertos e em áreas com vegetação permitiram comparar o comportamento da água da chuva e a presença de substâncias químicas transportadas pela atmosfera. Os equipamentos medem o volume de água que chega ao solo e identificam compostos que viajam longas distâncias antes de se depositarem no ambiente.
De acordo com os pesquisadores, as árvores funcionam como uma espécie de guarda-chuva natural. Parte da água é retida nas copas e evapora ou escorre lentamente pelos troncos. Quando a chuva atinge o chão em áreas cobertas por floresta, a tendência é de que ela infiltre no terreno e permaneça armazenada na camada de matéria orgânica formada por folhas, galhos e outros resíduos vegetais.
O papel da serapilheira na prevenção de enchentes
Mauro Schumacher, professor do Departamento de Ciências Florestais da UFSM, explica que essa camada de material orgânico — chamada de serapilheira ou "líter" — é fundamental para desacelerar o escoamento da água. "Essa madeira morta, esses galhos, esse líter [material orgânico], vai evitar então que essa água escorra superficialmente", afirma.
Esse mecanismo foi determinante para reduzir os efeitos das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Segundo os pesquisadores, sem a presença das áreas florestais, os danos causados pelas cheias poderiam ter sido ainda mais graves, tanto nas áreas urbanas quanto nas regiões rurais.
O doutorando em Engenharia Florestal Pedro Borges destaca o duplo papel das florestas. "As florestas são um meio de prevenção para a gente não ter essas catástrofes que dão tantos impactos sociais, ambientais, econômicos e também como um elemento de mitigação desses impactos", pontua.
Florestas como filtros de poluentes
Além de regular o fluxo de água, as árvores exercem uma função de filtro natural. A pesquisa identificou que as copas e as folhas retêm partículas trazidas pelo vento, incluindo poeira originada no Deserto do Saara e resíduos de queimadas registradas no Centro-Oeste do Brasil. Essas partículas podem transportar substâncias químicas que, ao se depositarem no solo e nos corpos d’água, interferem na qualidade ambiental.
Schumacher ressalta que a deposição atmosférica é um processo global e que ganha intensidade com as mudanças climáticas. "Essa deposição que existe no planeta todo, hoje em função das mudanças climáticas, com certeza acaba refletindo e tendo inferências no solo, na água, na biodiversidade, nos animais e na qualidade de vida da população", observa.
Os coletores usados no estudo permitem avaliar tanto a quantidade de água quanto a carga química associada à chuva e a partículas secas. Com esses dados, os pesquisadores conseguem estimar o papel das florestas na retenção de poluentes e na proteção dos recursos hídricos.
Preservação e plantio como estratégia para as cidades
Para os autores da pesquisa, investir na preservação e no plantio de florestas é uma das principais estratégias para proteger as cidades contra os efeitos das mudanças climáticas. Além de reduzir enchentes, as áreas florestadas ajudam a manter a qualidade do ar, a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas.
O acadêmico de Engenharia Florestal Lucas Almeida reforça essa visão. "Com certeza, as florestas contribuem muito para essa sanidade do meio ambiente, do ecossistema", ressalta.
Com as florestas nativas ocupando aproximadamente 15% do território gaúcho, os pesquisadores alertam para a necessidade de políticas públicas que incentivem a conservação das áreas existentes e a recuperação de áreas degradadas. Os ganhos, avaliam, são diretos para a sociedade, tanto na redução dos impactos de eventos extremos quanto na melhoria da qualidade de vida.
Borges conclui que a relação entre florestas e bem-estar social é clara. "Quanto mais a gente preservar de floresta, quanto mais a gente plantar floresta, melhor vai ser para a sociedade", finaliza.



