Estudo inédito revela que 45% da área conservada de florestas nativas no Brasil está em propriedades particulares, evidenciando o protagonismo do setor privado na agenda de sustentabilidade. A segunda edição do relatório "O protagonismo das florestas brasileiras na agenda climática global" foi coordenada por Roberto Waack e Beto Veríssimo, com parceria de instituições como Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Imazon, Amazônia 2030, CEBDS, Uma Concertação pela Amazônia e a Ibá.
Contínuo florestal: integração para o clima
O estudo propõe o conceito de "contínuo florestal", que integra florestas conservadas, manejadas, restauradas, em regeneração e plantadas. Essa visão amplia o potencial das florestas no enfrentamento da emergência climática, unindo conservação, produção de alimentos, fibras, madeira, energia e restauração. Segundo os autores, essa integração representa uma oportunidade singular para o Brasil.
Setor de árvores cultivadas: números expressivos
O setor brasileiro de árvores cultivadas para fins industriais e restauração planta 2,2 milhões de árvores por dia, totalizando 10,5 milhões de hectares cultivados. Utilizando técnicas de manejo sustentável, como mosaicos florestais, o setor cria corredores ecológicos e protege recursos hídricos, fauna e flora. Essas áreas avançam sobre terras degradadas, transformando paisagens de baixa produtividade em fontes de riqueza e serviços ambientais.
Pastagens degradadas: potencial de conversão
De acordo com o Atlas da Pastagem, da Universidade Federal de Goiás, o Brasil possui mais de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser convertidos para produção de alimentos, fibras e energia, além de restauração florestal. Os produtos do setor, como embalagens de papel biodegradáveis e fibras têxteis de viscose, substituem materiais de origem fóssil e chegam a 4 bilhões de pessoas no mundo.
Restauração de florestas nativas: novo segmento
A experiência silvicultural brasileira inspira o segmento de restauração de florestas nativas, com iniciativas como Symbiosis, Biomas, re.green, Mombak e Carbon2Nature Brasil. Essas empresas desenvolvem modelos de negócio baseados em créditos de carbono e venda de produtos madeireiros e não madeireiros, atraindo capital de corporações globais. Isso fortalece o compromisso do Brasil de restaurar 12 milhões de hectares, conforme sua NDC no Acordo de Paris.
Desafios e instrumentos econômicos
Apesar dos avanços, o estudo aponta desafios como a necessidade de fortalecer a segurança jurídica e fundiária, combater o desmatamento ilegal, a grilagem e o garimpo. É essencial aperfeiçoar instrumentos econômicos para tornar a floresta um ativo competitivo, com destaque para os mercados de carbono. A regulamentação do SBCE e a operacionalização do artigo 6 do Acordo de Paris, incluindo as ITMOs, são cruciais para conectar o potencial florestal à demanda global por créditos de alta integridade.
ITMOs: oportunidades e ajustes
A proposta de resolução sobre ITMOs é vista como oportunidade, mas requer aperfeiçoamentos, como o limite de 50 milhões de ITMOs, a restrição de 50% dos créditos por projeto para transferências internacionais e o prazo a partir de 2031. O conceito de contínuo florestal demonstra que a paisagem é mais valiosa quando integra produção sustentável, conservação e restauração, gerando benefícios ambientais, sociais e econômicos.
Vantagem competitiva e futuro
O Brasil possui conhecimento técnico, biodiversidade, escala territorial, capacidade empresarial e base científica respeitada. Se construir um ambiente institucional adequado, poderá ganhar relevância na nova economia verde. O futuro das florestas brasileiras depende da inteligência na integração de produção, conservação e restauração para o desenvolvimento nacional.



