Um estudo pioneiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) detectou a presença de sertralina, princípio ativo de antidepressivos como o Zoloft, no cérebro de tubarões-martelo capturados no litoral fluminense. A pesquisa, ainda não publicada, mas divulgada no âmbito da UFRJ, acende um alerta sobre os impactos dos resíduos farmacêuticos no ambiente marinho.
Como o antidepressivo chega ao mar
A sertralina é o antidepressivo mais prescrito no Brasil. Em 2025, as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceram 11% em relação ao ano anterior. Um levantamento nacional indica que 18,6% mais brasileiros usaram medicamentos para saúde mental entre 2022 e 2024. Após ser metabolizada pelo organismo, parte da substância é excretada pela urina, chega ao esgoto e, sem tratamento adequado, vai parar no oceano.
No estado do Rio de Janeiro, apenas cerca de 47% do esgoto gerado é tratado, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Grande parte do esgoto é lançada no mar pelos emissários submarinos de Ipanema e da Barra da Tijuca, que realizam apenas tratamento preliminar, incapaz de remover fármacos.
A descoberta no cérebro dos tubarões
O Projeto EcoShark, coordenado pela professora Mariana Batha Alonso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, monitora a saúde de tubarões na costa fluminense desde 2018. Em parceria com pescadores, os cientistas analisaram tubarões-martelo (Sphyrna lewini e S. zygaena), espécies criticamente ameaçadas de extinção, capturados acidentalmente em redes de pesca no Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana.
Os exames detectaram sertralina no tecido cerebral dos animais. Como predadores de topo, os tubarões bioacumulam substâncias presentes na água, no sedimento e na cadeia alimentar. A sertralina tem afinidade por tecidos ricos em lipídios e pelo sistema nervoso, o que explica sua concentração no cérebro.
Não é um caso isolado
Em março de 2026, um estudo publicado na revista Environmental Pollution revelou que 28 de 85 tubarões amostrados próximos à ilha de Eleuthera, nas Bahamas, apresentaram concentrações detectáveis de cocaína, cafeína e analgésicos no sangue. Pesquisadores brasileiros também encontraram antibióticos e opioides em tubarões. O achado reforça a preocupação: se drogas aparecem em tubarões de uma ilha com baixa densidade urbana, o que esperar dos que nadam a menos de 1 km das praias do Rio?
Possíveis efeitos nos animais
A sertralina age sobre a serotonina no cérebro humano. Como o transportador de serotonina é semelhante entre vertebrados, a droga pode interagir com proteínas dos tubarões. Estudos de laboratório mostram que peixes-zebra expostos a 0,1 µg/L de sertralina – concentração encontrada em águas costeiras – desenvolveram hipolocomoção e retardo no aprendizado. Ainda não se sabe o efeito em tubarões, que têm neuroquímica distinta dos peixes ósseos, mais próxima à dos mamíferos.
Três crises interligadas
A descoberta toca em três problemas que o Brasil trata separadamente: a crise de saúde mental (consumo de antidepressivos cresceu 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos de 2023 a 2025), a crise de saneamento (metade do esgoto fluminense sem tratamento adequado) e a crise de conservação (tubarão-martelo criticamente ameaçado). Alterar a neuroquímica desse predador é um experimento involuntário sem controle.
O que precisa ser feito
Os pesquisadores apontam três ações urgentes: incluir o rastreamento sistemático de fármacos em tubarões, raias e cetáceos nos protocolos de monitoramento ambiental; modernizar as estações de tratamento de esgoto para remover micropoluentes farmacêuticos; e ampliar o financiamento à pesquisa de ecotoxicologia marinha. O Brasil tem uma costa de quase 8 mil quilômetros e uma das maiores biodiversidades do planeta – e agora, tubarões com antidepressivos no cérebro.
As pesquisas foram financiadas pelo PIBIC-UFRJ, Capes e Faperj. O SubProjeto EcoShark integra o Projeto de Pesquisa Marinha e Pesqueira, medida compensatória estabelecida pelo Termo de Ajustamento de Conduta de responsabilidade da empresa PRIO, conduzido pelo Ministério Público Federal – MPF/RJ.



