Uma servidora pública de 42 anos, Elizana da Silva e Silva, enfrenta dores constantes desde uma laqueadura realizada em janeiro de 2024 na Maternidade Nossa Senhora de Nazareth, em Boa Vista, Roraima. Ela acusa o Governo de Roraima e a Justiça de negligência, pois até agora não conseguiu acesso a uma cirurgia corretiva. Moradora de Mucajaí, no sul do estado, Elizana alega que a cirurgia de laqueadura resultou em uma lesão no lado esquerdo do nervo genitofemoral, que fortalece a região superior da coxa. A lesão alterou completamente sua rotina, saúde e qualidade de vida.
Diagnóstico e tratamentos
As dores intensas começaram no dia seguinte ao procedimento, quando Elizana tentou se levantar para tomar banho ainda na maternidade. Dois dias depois, iniciou-se a investigação da causa. Uma ultrassonografia sugeriu hérnia, mas uma tomografia no Hospital Geral de Roraima (HGR) descartou essa hipótese. A médica responsável então informou que a dor poderia ser causada por um ponto cirúrgico comprimindo o nervo pudendo, relacionado às funções pélvicas. Ela disse que o corpo absorveria os pontos com o tempo e a dor passaria. Elizana ficou internada por oito dias e recebeu alta em 4 de fevereiro de 2024, mas as dores persistiram em casa.
Cerca de um mês depois, ela retornou à maternidade com a mesma queixa, mas não conseguiu ser atendida pelos médicos responsáveis. Recebeu apenas medicação e foi liberada. Uma enfermeira sugeriu que procurasse um neurocirurgião na rede particular. Em consulta com uma médica especialista em dor, exames revelaram fibrose — crescimento excessivo de tecido cicatricial — comprimindo o nervo genitofemoral. Desde então, Elizana passou por tratamentos como bloqueios e radiofrequência para controle da dor, além de acompanhamento no Centro de Diagnóstico Especializado (CDE) do HGR. No entanto, esses procedimentos oferecem alívio temporário de 10 a 15 dias, sem solução definitiva.
Impactos na rotina
A servidora afirma que sua rotina mudou drasticamente. Ela passou a trabalhar em home office porque permanecer sentada por longos períodos intensifica as dores. Também deixou de praticar atividades físicas e enfrenta limitações para tarefas cotidianas, como dirigir. Mãe de três filhos, duas crianças de 7 e 4 anos que dependem de seus cuidados, Elizana precisou de acompanhamento psiquiátrico devido aos efeitos colaterais dos medicamentos para dor. "Estou completamente sedentária, não consigo nem caminhar", desabafou.
Ação judicial
Diante da falta de resultados, um cirurgião indicou uma cirurgia ginecológica para corrigir o problema, orçada em cerca de R$ 110 mil em uma unidade particular de Roraima. Sem condições de pagar, Elizana ingressou com uma ação judicial em fevereiro de 2026, com apoio da Defensoria Pública do Estado (DPE) em Mucajaí, pedindo que o governo custeie o procedimento. No entanto, a Justiça de Roraima negou o pedido de tutela de urgência, baseando-se em um parecer do Núcleo de Apoio Técnico do Judiciário (NatJus) que classificou a cirurgia como eletiva. A decisão entendeu que a rede estadual possui profissionais e estrutura para atender o caso. Elizana, porém, contesta: "Não existe um médico lá que se disponha a fazer. Os neurocirurgiões não fazem esse tipo de procedimento, trabalham com cabeça, coluna e nervos ligados a essas regiões, não com nervos periféricos". O processo segue em tramitação e está concluso para sentença. O Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR) informou que não comenta processos em andamento. O g1 procurou o governo do estado, mas aguarda retorno.



