Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou que o Comando Vermelho (CV) utilizava um clube recreativo na Zona Norte da capital e uma pousada em Armação dos Búzios para lavar dinheiro proveniente do tráfico de drogas. O esquema movimentou mais de R$ 11 milhões, conforme apontam os relatórios de inteligência financeira analisados durante as apurações. Nesta terça-feira, a corporação deflagrou a Operação Quimera, com mandados de busca e apreensão em dez endereços, para desarticular a estrutura financeira da organização criminosa.
Clube Várzea Country: administração paralela
As investigações indicam que aliados da facção assumiram informalmente a administração do Várzea Country Clube, localizado em Água Santa, na Zona Norte. Mesmo sem diretoria formalmente registrada, o clube permanecia em plena atividade, promovendo eventos e sendo gerido por pessoas sem vínculo jurídico ou estatutário com a entidade. As comunicações interceptadas pela polícia mostram que esses administradores controlavam decisões internas, gestão cotidiana e finanças sem transparência ou prestação de contas.
O caso teve início após dirigentes do Social Clube Marabú denunciarem ameaças para deixar a administração da entidade e entregar o controle a pessoas ligadas ao tráfico. As intimidações teriam sido ordenadas por Jeam Carlos do Nascimento Santos, conhecido como "Jeam do 18", apontado como liderança do tráfico local. O grupo também exigia pagamento mensal de R$ 6 mil para permitir o funcionamento do estabelecimento sem represálias.
Núcleo familiar na gestão financeira
As apurações identificaram um núcleo familiar responsável pela gestão financeira paralela do Várzea. Amauri Paixão Ferreira, Rayane Ferreira Santos de Souza Paixão e Átila Paixão Ferreira atuavam como administradores de fato. Átila movimentou cerca de R$ 2,4 milhões em seis meses, apesar de não possuir atividade empresarial formal compatível. Jonathan Paixão Baptista, primo de Amauri e Átila, realizou 44 transferências via PIX que somaram cerca de R$ 240 mil para Átila. Jonathan figura como autor em pelo menos 20 procedimentos policiais, muitos relacionados a roubos de carga.
Michele Arnoso, que declarava ser recepcionista com renda de R$ 3,2 mil, movimentou aproximadamente R$ 2,23 milhões em seis meses. Ela recebeu cerca de R$ 253 mil de Amauri em seis transferências. Os Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) revelaram movimentações milionárias incompatíveis com as rendas declaradas, com intensa circulação de recursos entre familiares, empresas e pessoas físicas, via transferências bancárias, depósitos em espécie e operações fracionadas via PIX.
Pousada em Búzios: elo com o tráfico
As investigações também ligaram o grupo a uma pousada em Armação dos Búzios, que pode ter sido usada para lavar dinheiro do tráfico. O estabelecimento tem 16 quartos, cinco funcionários e diárias de aproximadamente R$ 540 na alta temporada. Mesmo com estrutura pequena, a pousada movimentou cerca de R$ 3,44 milhões em pouco mais de seis meses e registrou 602 depósitos em espécie, totalizando aproximadamente R$ 955 mil.
Segundo a polícia, o empreendimento tem ligação direta com o núcleo do Várzea. Embora outra pessoa figure formalmente como sócia, o e-mail cadastrado pela pousada contém o nome de Rayane, apontada como administradora informal do clube. Transferências financeiras entre Rayane, a sócia formal e a empresa indicam um circuito financeiro. A hipótese é que parte dos valores tenha sido direcionada à pousada para ingressar no circuito empresarial formal, dificultando a identificação da origem.
Operação e medidas judiciais
A Operação Quimera é conduzida pela 52ª DP (Nova Iguaçu), com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ. Os mandados são cumpridos na capital e na Região dos Lagos, incluindo o Várzea Country Clube, imóveis ligados aos investigados e a pousada. A Justiça determinou bloqueio de valores e ativos, indisponibilidade de bens, restrições sobre veículos e participações societárias, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal.
A ação integra a Operação Contenção, estratégia do Governo do Estado para conter o avanço territorial do Comando Vermelho. Somadas, as movimentações financeiras identificadas ultrapassam R$ 11 milhões e apresentam características típicas de ocultação patrimonial, pulverização de recursos, mescla patrimonial e lavagem de dinheiro, segundo a Polícia Civil.



