O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, que comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023, decidiu revelar em livro os bastidores de um dos períodos mais tensos da história recente do Brasil. Em 'Eu Disse Não', com lançamento previsto para setembro pela Autêntica Editora, o oficial narra em primeira pessoa como ajudou a formar uma 'trincheira antigolpista' e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional, tentativa que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Testemunho crucial no STF
O relato de Baptista Junior foi decisivo na ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal (STF), que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de reclusão, em julgamento concluído em setembro de 2024. O oficial detalhou três momentos em que a tentativa de golpe foi frustrada, confirmou reuniões no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa, e revelou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria preso se insistisse no golpe.
Baptista Junior também afirmou que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, colocou tropas à disposição do plano golpista. O livro, segundo o autor, mostra que a resiliência das instituições em 2022 não foi automática, mas resultado de escolhas individuais de oficiais de alta patente.
Motivação para escrever
Em entrevista ao Estadão, Baptista Junior explicou que a decisão de escrever o livro veio após pesquisas do Instituto AtlasIntel. Um levantamento realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023, período da invasão das sedes dos Três Poderes, revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro. 'Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022', disse.
Dois anos e meio depois, uma nova pesquisa mostrou que cerca de 30% da população ainda não via como ataque à democracia a possibilidade de Bolsonaro ter declarado estado de sítio para cancelar o resultado eleitoral. 'Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras', anotou o militar.
Trecho exclusivo do livro
No trecho divulgado, Baptista Junior descreve o discurso de Bolsonaro em 1º de novembro de 2022, no Alvorada, quando o então presidente reconheceu a derrota de forma técnica, sem felicitar o vencedor. 'Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia', escreve.
O oficial compara o momento a um voo turbulento: 'Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem', referindo-se à sua nomeação em 28 de março de 2021, quando decolou de São Paulo rumo a Brasília para assumir o comando da Aeronáutica.



