A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), declarou que a Corte somente alcançará a igualdade de gênero quando as 11 cadeiras forem ocupadas por mulheres. A afirmação foi feita durante o primeiro dia do Summit Mulheres nas Profissões, evento organizado pela empresária Luiza Trajano, nesta terça-feira, 4, em São Paulo, diante de uma plateia lotada.
Declaração contundente sobre a composição do STF
“Quando me perguntam quando o Supremo Tribunal Federal terá igualdade de homens e mulheres nas cadeiras, eu respondo: quando as 11 forem de mulheres”, disse a ministra. Ela justificou: “Porque nós tivemos sempre 11 homens dizendo que sabiam o que a gente queria. Ninguém sabe o que a gente quer. Quem sabe o que a gente quer é a gente mesmo.”
A fala de Cármen Lúcia ecoa a histórica sub-representação feminina no STF, que em 133 anos de existência teve apenas três ministras titulares. Atualmente, além dela, a Corte conta com Rosa Weber e Cármen Lúcia, mas nenhuma outra mulher foi indicada nos últimos anos.
Crítica à ditadura da beleza e à gordofobia
A ministra também dedicou parte de sua palestra para criticar a imposição de padrões estéticos irreais. “Resolveram impor que nós, mulheres, temos de ter 40 quilos. Fico preocupada quando vejo mulheres fazendo todo tipo de cirurgia, não para se contentar, mas porque o marido ou o parceiro tem gordofobia. Ele não gosta de você, minha filha. Qual é a parte que você não entendeu?”, disse, com tom bem-humorado.
Ela lembrou que, apesar de o princípio da igualdade estar previsto em leis, constituições e tratados internacionais, as mulheres ainda vivem em situação de desigualdade na prática. “Não há democracia forte sem que haja a garantia de igualdade pra todas as mulheres e homens”, afirmou.
Violência contra a mulher e feminicídio
Durante os cerca de 40 minutos de palestra, Cármen Lúcia destacou os desafios que agravam a desigualdade de gênero, como a violência doméstica, os crimes sexuais e a cultura machista. “Quem está matando as mulheres são os parceiros e os amigos, no espaço mais sagrado da convivência, o lar”, reforçou.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontam que 80% dos casos de feminicídio no Brasil envolvem parceiros ou ex-parceiros. Esse cenário evidencia a urgência de políticas públicas eficazes.
Três compromissos para enfrentar a desigualdade
A ministra listou três compromissos para a plateia. O primeiro é investir em educação para promover uma cultura de respeito e igualdade entre meninos e meninas desde a infância. O segundo é a luta pelos direitos e a união entre as mulheres. “Não se ganha, se conquista”, orientou.
O terceiro compromisso inclui campanhas, como a que está liderando com previsão de lançamento em novembro, intitulada “Levante, mulher”, que pretende protestar por meio de tarjas em prol de mulheres que foram mutiladas.
Participação no evento e mensagem final
Cármen Lúcia participou do Summit como autora do livro “Pela mão do povo - Democracia e voto no Brasil”. Ela encerrou sua fala com uma mensagem direta: “É preciso que isso valha dentro de casa, quando o parceiro diz: ‘Pode deixar, eu sei o que você quer, eu resolvo’. Não. Quem sabe de mim sou eu”.



