Novas imagens de câmeras corporais mostram execução de jovem rendido em SP
Câmeras corporais mostram execução de jovem rendido em SP

O julgamento de dois policiais militares acusados de executar Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, entra no segundo dia nesta quarta-feira (29). A TV Globo teve acesso a novas gravações das câmeras acopladas aos uniformes dos agentes que participaram da ação. Os vídeos mostram, por outro ângulo e de forma mais detalhada, a sequência que terminou com a morte do jovem, registrando o momento exato em que os disparos são feitos contra ele, que aparece desarmado e obedecendo às ordens dos policiais.

Novas imagens revelam detalhes da execução

Em uma sequência de cerca de 20 segundos, Igor aparece inicialmente rendido, com as mãos sobre a cabeça. Em seguida, ele se deita no chão após receber ordem dos policiais. Depois, começa a se levantar, com uma mão erguida, novamente obedecendo às determinações dos agentes. Nesse momento, o cabo Renato Torquatto da Cruz faz o primeiro disparo. Logo em seguida, o cabo Robson Noguchi de Lima também atira contra o jovem.

As gravações mostram que, assim que os policiais chegam ao quarto onde estavam quatro suspeitos, todos se rendem. Durante a abordagem, é possível ouvir os policiais dizendo: "Perdeu, perdeu, perdeu." Na sequência, o cabo Renato Torquatto da Cruz, ainda do lado de fora do quarto, pergunta se há alguém armado e dispara duas vezes contra as paredes do imóvel. Após os tiros, os quatro suspeitos se deitam no chão enquanto os policiais continuam perguntando sobre armas.

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Pouco depois, Robson Noguchi de Lima entra no cômodo, seguido por Renato Torquatto da Cruz, que pergunta a Igor se ele tem antecedentes criminais e se está armado. O jovem responde que não. O policial então manda Igor se levantar. Quando ele começa a obedecer, Renato dispara. Em seguida, Robson também atira. As imagens das câmeras corporais não mostram nenhuma arma com os quatro suspeitos. Após os disparos, os policiais passam a conversar a fim de inferir que o suspeito portava uma arma: "Tava armado, caralho. Tava armado". Em seguida, fazem um novo disparo contra a parede enquanto repetem ordens para que os suspeitos "soltem a arma". Depois, os policiais colocam luvas e seguem dentro da residência. Até o fim das gravações das quatro câmeras corporais, não há registro da apreensão de nenhuma arma com os quatro homens abordados.

Defesa alega legalidade da ação policial

As imagens da câmera corporal do soldado Hugo Leal de Oliveira Reis devem ser exibidas aos jurados nesta quarta. Hugo e o soldado Victor Henrique de Jesus respondem pelo mesmo crime na condição de colaboradores dos executores. Como os processos deles foram desmembrados, eles ainda não foram levados a júri. O advogado João Carlos Campanini, que defende o cabo Robson e o soldado Victor, afirmou: "A defesa pretende demonstrar aos jurados a legalidade da ação policial, eis que as câmeras corporais não mostraram a realidade". Já o advogado Wanderley Alves dos Santos, que defende o cabo Renato e o soldado Hugo, disse que a acusação contra seus clientes é frágil. "A hipótese acusatória não se sustenta. Imagens da COP são apenas um recorte acerca dos fatos e estão sujeitas a diversos vieses cognitivos", declarou Wanderley.

Investigação aponta execução

Segundo as investigações do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), as imagens das câmeras corporais mostram que Igor foi vítima de execução. Os PMs não sabiam que os equipamentos estavam funcionando e gravando a ocorrência. Para o Ministério Público (MP), os policiais decidiram matar o jovem mesmo após a rendição, substituindo a atuação legal do Estado por uma ação de justiçamento. Segundo a denúncia da Promotoria, os agentes agiram "impelidos por motivo torpe, deliberando matar o suspeito já rendido e subjugado em ato de desforra".

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O julgamento dos dois PMs acusados de matar Igor será conduzido pelo Tribunal do Júri, responsável por analisar crimes dolosos contra a vida. Caberá aos sete jurados — cinco homens e duas mulheres — decidir se os policiais são culpados ou inocentes pelas acusações relacionadas ao assassinato. Os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima respondem presos pelo crime de homicídio qualificado por motivo torpe e pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também respondem pelo mesmo crime, mas na condição de colaboradores dos executores. Os quatro réus aparecem nas imagens das câmeras corporais utilizadas durante a ocorrência.

Família busca justiça

"A gente busca justiça porque entendemos que foi uma execução. Não somos contra a PM. Esses PMs, no caso, acabaram manchando nome da corporação porque se excederam", disse o advogado Jonatha Carvalho, que atua no caso ao lado da advogada Gabriela Amoras Silva, defendendo os interesses da família de Igor como assistentes da acusação. "O que mais me dói é que meu filho ficou agonizando e deixaram-no morrer de olhos e boca abertos", disse Magdo de Moraes Santos, pai de Igor, ao g1. "Vieram na maldade." Igor deixou uma filha de 5 anos.

Nesta quarta-feira, o Tribunal do Júri deve ouvir mais quatro testemunhas. Na sequência, está previsto o interrogatório dos dois policiais militares que são julgados. No entanto, como o primeiro dia de julgamento se estendeu por várias horas, ainda existe a possibilidade de que os interrogatórios não sejam concluídos nesta quarta. Depois dessa fase, começam os debates entre acusação e defesa. A expectativa é que o julgamento seja encerrado apenas na quinta-feira (30).