Muçum proíbe reconstrução em área de enchente e cria parque ecológico
Muçum proíbe reconstruir em área de enchente e cria parque

Muçum, no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, nunca mais foi a mesma depois de enfrentar três enchentes em um intervalo de apenas oito meses, entre setembro e novembro de 2023 e maio de 2024. A pior delas ocorreu em 2024, durante a maior tragédia climática da história do estado. Cerca de 80% da área urbana ficou submersa, 350 construções foram condenadas e o cemitério municipal, com aproximadamente 3 mil jazigos, foi destruído. O Rio Taquari subiu 26 metros, nível nunca registrado, e a força da água devastou uma rodovia inteira. A única estrutura autorizada a ser reconstruída no mesmo local foi uma ponte.

Decisão inédita: proibição de reconstruir

Após a tragédia, a prefeitura adotou uma medida considerada incomum no país: proibiu novas construções na área mais impactada. "Decisão nossa: vamos tirar essas famílias da água. Fica melhor para o município e para as pessoas também", afirma o prefeito Amarildo Baldasso (PSD). A região mais afetada será transformada em um parque ecológico de 200 mil metros quadrados, com solo permeável e espaços de lazer. A expectativa é que, em futuras enchentes — consideradas inevitáveis por especialistas —, os prejuízos sejam muito menores.

Todas as construções na área já foram demolidas, exceto um prédio de quatro andares que ainda será derrubado. As famílias aguardam novas moradias em locais distantes do rio. "Eu só vou descansar minha cabeça quando eu entrar na casa onde não vai água", diz a aposentada Cleci Maria. A dona de casa Teresa da Silva de Almeida, 75 anos, relembra: "As três últimas eu perdi tudo, tudo, tudo. Saímos eu e ele com a roupa do corpo". Os agricultores Raul e Janete Zilio contam: "Começou a entrar água na cozinha, começou a desabar a garagem, desabar a outra garagem. Aí começou a desabar a cozinha e no fim foi a casa toda. Desmanchou. E daí a gente caiu dentro do rio".

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Moradores e empresas se adaptam

Alguns moradores já se mudaram. Há cinco meses, a dona de casa Sérgia Fernandes passou a viver em um condomínio construído longe do Rio Taquari. "Onde eu morava não tinha mais como reconstruir, era tudo área de risco. Não tinha como fazer mais nada ali. Valeu a pena? Muito!" Empresas também receberam incentivos para mudar de endereço. O empresário Cleber Pasqualetto afirma: "Temos 15 anos para pagar o terreno num valor bom porque, queira ou não queira, a valorização nos lugares seguros da cidade foi muito alta". Além de Muçum, outros seis municípios da região discutem transformar em lei a proibição de reconstruir em áreas devastadas.

Brasil investe mais em reconstrução do que em prevenção

A estratégia de Muçum ainda é exceção. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), o Brasil gastou, nos últimos 15 anos, três vezes mais com reconstrução do que com prevenção de desastres. Entre 2012 e 2026, foram destinados R$ 34,36 bilhões para ações de resposta e recuperação, contra R$ 9,62 bilhões para prevenção. "A preocupação maior sempre é sair de um socorro para outro. O planejamento da prevenção requer ações muito mais estruturantes, de médio e longo prazo", afirma Fábio Augusto de Amorim, auditor do TCU.

Adaptação às mudanças climáticas é urgente

Diante da intensificação dos eventos extremos, especialistas defendem a adaptação. "Adaptar é você poder evitar que exista o impacto da mudança climática, o impacto direto, e que a gente tenha o menor tipo de prejuízo possível para as pessoas", afirma Tasso Azevedo. O climatologista Carlos Nobre destaca que milhões de brasileiros vivem em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos. "Os estudos mostram que não pode manter essa população". Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que mais de 10 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco. A diretora do órgão, Regina Alvala, diz: "Cada vez mais se faz fundamental que as cidades se preparem, os estados se preparem, a União se prepare para dar conta de um planeta mais aquecido, com eventos extremos mais frequentes e intensos".

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Petrópolis enfrenta desafio diferente

Em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, a situação é mais complexa. Nos últimos 15 anos, a cidade registrou 430 mortes por deslizamentos e enchentes, e mais de 28 mil desabrigados ou desalojados. Apesar disso, cerca de um quarto da população — aproximadamente 72 mil moradores — ainda vive em áreas de risco. O prefeito Hingo Hammes (PP) afirma que o problema não é apenas financeiro: "Não é um problema só de dinheiro. É um problema de geografia também e do histórico". Moradora desde a infância, Michelle de Souza convive diariamente com a insegurança. "É uma situação que a gente fica temerosa, porque a gente tem que conviver com tudo isso". Ela resume a preocupação de milhares: "A gente não sabe o que a natureza tem preparado para a gente".