Cientista chinês investigado após morte de menina em terapia gênica
Cientista chinês investigado após morte de menina em terapia gênica

A Universidade Jiao Tong de Xangai abriu uma investigação contra o neurocientista Zilong Qiu após a morte de uma menina de seis anos, identificada pelo pseudônimo “Mei”, que faleceu em março de 2025, cerca de uma semana depois de receber uma infusão espinhal de bilhões de vírus projetados para penetrar no cérebro com fins terapêuticos. O caso, revelado por uma investigação conjunta da revista Science e da plataforma Retraction Watch, expõe falhas éticas e regulatórias na condução de pesquisas experimentais na China.

Detalhes do caso e investigação em andamento

Segundo a Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai, a morte não foi comunicada em um estudo publicado em revista científica. A instituição afirmou, em comunicado, que “criou um grupo de trabalho especial para fazer investigação exaustiva sobre o incidente” e que “opõe-se firmemente à realização de pesquisas científicas médicas em violação da ética da pesquisa científica”. O comunicado ainda garantiu que “medidas severas” serão tomadas conforme as conclusões da investigação.

Zilong Qiu, pesquisador principal do estudo, publicou um artigo na revista Nature sobre a terapia aplicada em animais, mas não mencionou o caso de Mei. Até o momento, ele não se manifestou publicamente sobre as denúncias. Sete especialistas em genética, virologia e bioética analisaram o estudo e expressaram preocupação, afirmando que Qiu minimizou os riscos da terapia ao descrevê-la aos pais, ignorou sinais de alerta dos estudos com animais e prosseguiu com o tratamento mesmo ciente do improvável sucesso.

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Terapia gênica: como funciona e riscos envolvidos

A edição genética é uma tecnologia que permite alterar, remover ou adicionar pedaços do DNA de forma precisa, funcionando como um “editor de textos” para o código genético. A técnica mais famosa, CRISPR-Cas9, age como uma “tesoura molecular” e foi premiada com o Nobel de Química de 2020. No caso de Mei, a terapia tinha como objetivo corrigir uma condição genética rara que atrasava seu desenvolvimento cognitivo, reescrevendo o gene mutado nas células nervosas para que ela pudesse produzir uma proteína vital.

Os pais de Mei pagaram mais de 800 mil dólares para financiar o experimento, mas, segundo o relatório da Science e do Retraction Watch, não foram informados adequadamente sobre os riscos. Documentos oficiais e relatos dos pais indicam que o hospital permitiu o tratamento experimental sob uma disposição regulatória que não exige aprovação de reguladores nacionais. Após a morte da criança, o hospital pagou uma multa modesta a uma autoridade de saúde local, mas Qiu não foi sancionado publicamente.

Impactos para a ciência chinesa e precedentes

A morte de Mei representa um novo golpe às ambições da China de rivalizar com os Estados Unidos como potência biotecnológica. Em 2018, o biofísico He Jiankui, conhecido como “Dr. Frankenstein”, produziu em segredo bebês com genes editados e foi condenado a três anos de prisão por enganar autoridades médicas. Em setembro, o Conselho de Estado da China publicou novas regras que proíbem a modificação do DNA em células reprodutivas humanas, como espermatozoides, óvulos ou embriões, exatamente o tipo de pesquisa que Jiankui realizava.

O líder chinês, Xi Jinping, estabeleceu como meta que o país esteja na liderança global da ciência e tecnologia até 2049, mirando as comemorações da revolução que levou o Partido Comunista ao poder. Este caso, no entanto, levanta questões sobre a ética e a supervisão de pesquisas experimentais na China, especialmente em áreas de fronteira como a edição genética.

Especialistas ouvidos pela Science destacam que a falta de transparência e a pressão por resultados inovadores podem levar a violações éticas. A investigação em andamento na Universidade Jiao Tong de Xangai será crucial para determinar responsabilidades e estabelecer precedentes para futuras pesquisas na área.

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