Foi durante o recreio que Davi Puga Rufato descobriu o prazer de ver suas histórias ganharem vida. Em vez de se juntar às brincadeiras, o menino de 10 anos, que vive em Dracena, no interior paulista, preferia criar pequenos livretos caseiros de comédia para distribuir aos colegas. O que parecia apenas uma atividade lúdica acabou se tornando o ponto de partida para a realização de um sonho: a publicação do primeiro e-book, 'O Bê-á-Bá para Gostar de Ler'.
Davi é diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte e também possui Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Na obra, ele reúne uma série de dicas e desafios que têm como objetivo despertar o gosto pela leitura em crianças, pais e educadores. O lançamento, no entanto, significa muito mais do que uma estreia no mercado literário: representa a consolidação de um caminho que Davi encontrou para desenvolver todo o seu potencial.
Dos cadernos ao e-book
O processo criativo de Davi começou de forma despretensiosa. No intervalo das aulas, ele escrevia mini livros de comédia para os próprios colegas, uma prática que o ajudou a perceber que podia transformar ideias em narrativas. A virada veio quando a mãe, Meiriéllen Puga Rufato, professora e empresária, fez um curso sobre comercialização de e-books. Foi assim que o menino ganhou o incentivo necessário para publicar sua primeira obra.
"Na escola, durante o recreio a gente fazia tipo uns mini livrinhos caseiros de comédia. Depois de um tempo, a minha mãe fez um curso sobre vender e-books. Ela me deu a faca e o queijo para publicar o livro. É um processo bem rápido, porque eu já tenho as ideias e a forma de fazer", contou Davi.
Atualmente, além de escritor, Davi participa de palestras sobre inclusão e autismo, compartilhando sua experiência para inspirar outras famílias. E ele já adianta que não pretende parar por aqui: o segundo e-book já está em produção.
Leitura precoce e hiperfocos
O interesse de Davi pelos livros apareceu muito cedo. De acordo com a mãe, ele aprendeu a ler e a escrever sozinho durante a pandemia, quando tinha apenas quatro anos. Desde então, nunca mais parou. Ao longo dos últimos anos, o menino já leu mais de 100 livros, um número expressivo para a idade.
Como muitas crianças com superdotação, Davi passou por diferentes hiperfocos, como dinossauros e personagens da franquia Mario. No entanto, a leitura continuou sendo sua principal paixão, um interesse que a família fez questão de cultivar.
"Percebendo sua aptidão e talento, eu e meu esposo compramos vários livros e incentivamos Davi a escrever, agora de modo menos amador, o que ele faz com muita naturalidade e espontaneidade", explicou Meiriéllen. A produção do primeiro e-book surgiu justamente como uma forma de estimular esse interesse, e a família apoiou o projeto, ajudando a transformar as histórias que antes ficavam apenas nos cadernos em uma publicação disponível em plataformas digitais.
Dupla excepcionalidade: um novo olhar
A trajetória do menino também mudou a forma como toda a família passou a enxergar o autismo. Meiriéllen conta que o diagnóstico foi recebido quando Davi tinha quatro anos, dando início a anos de terapias, acompanhamento especializado e estudos sobre o tema. Conviver com a dupla excepcionalidade do filho, segundo ela, ensinou uma importante lição.
"Essa dupla excepcionalidade do Davi nos ensinou que cérebros funcionam de formas diferentes e que o padrão 'normal' de comportamento não existe", relatou a mãe.
Luta por inclusão e acolhimento
Além de atuar como professora da rede municipal de ensino, Meiriéllen é uma militante da causa da inclusão. Foi justamente por perceber a dificuldade de acesso ao diagnóstico e ao tratamento na região que ela criou um espaço de acolhimento voltado a crianças atípicas em Dracena.
"Como mãe, pedagoga e militante na causa inclusiva, me sinto na obrigação de estudar e ofertar, cada vez mais, estímulos e suporte para que Davi avance e desenvolva seus talentos. Ainda há uma demanda muito grande de crianças sendo diagnosticadas erroneamente, e uma vez diagnosticada, surge a pergunta: quem que vai tratar? Onde vai tratar? Como que vai tratar?", contou.
Sonhos para o futuro
Davi sonha em ver suas obras publicadas em versão impressa e continuar escrevendo novas histórias. Enquanto isso, concilia a rotina escolar, as leituras, a produção de novos textos e as palestras sobre autismo.
Apesar da pouca idade, o jovem escritor já tem uma mensagem clara para transmitir. Mais do que ensinar técnicas de leitura, ele espera que sua história incentive outras crianças, com ou sem autismo, a acreditarem nos próprios sonhos.
"Não importa laudo. Não importa se você tem autismo nível 1, nível 2 ou nível 3. Isso não significa que você não é capaz de fazer alguma coisa. É só você pensar e insistir naquilo que você tanto quer. Eu gostava de ler e agora publiquei um livro. Estou quase publicando o segundo, então pegue a minha história como exemplo para você escrever a sua", concluiu Davi.



