Estudo da FGV aponta que Fundeb pode ter precarizado magistério municipal
FGV: Fundeb pode ter precarizado magistério municipal

Um estudo divulgado no blog do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) apresentou um diagnóstico intrigante sobre os efeitos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) no perfil dos docentes. Criado para elevar a remuneração e valorizar os professores, o Fundeb pode ter gerado um efeito colateral adverso: impulsionar a precarização do magistério nas redes municipais, ao estimular a contratação de professores temporários.

Novo Fundeb e o aumento de temporários

Os pesquisadores Rafael Barros Barbosa, Antonia Amanda Araujo e Yves Miguel Barbosa Sousa, com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), associam o crescimento das contratações temporárias à implementação das regras do Novo Fundeb, em 2021. Naquele ano, ficou estabelecido que a complementação da União ao fundo, então de 10%, subiria gradualmente até atingir 23% em 2024. Além disso, o percentual dos recursos municipais que deve ser gasto com a remuneração dos professores passou de 60% para 70%.

Desde então, o número de professores temporários saltou de 296 mil para 471 mil, um aumento de 58% em apenas três anos. Para os pesquisadores, embora mais análises sejam necessárias para explicar o fenômeno, essa tendência não é aleatória: trata-se de uma decisão política. Como os prefeitos são obrigados a gastar mais com remuneração, a alternativa encontrada foi contratar professores temporários, evitando o aumento de despesas permanentes, como reajustes salariais e contratação de efetivos.

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Prudência fiscal versus qualidade educacional

Os gestores municipais, na verdade, agem com cautela, pois o Fundeb é composto por impostos cíclicos, como ICMS, IPVA e IPI-Exportações, cuja arrecadação depende do vigor econômico. Se a atividade econômica se retrai, as receitas caem. Assim, aumentar salários de contratados ou admitir novos efetivos são decisões de alto risco. Para os gestores, a prudência com os gastos públicos e a responsabilidade fiscal são prioridades.

De um lado, há a legítima preocupação com as contas públicas; de outro, a necessidade de oferecer educação básica de qualidade. E a contratação de professores temporários não contribui para esse objetivo. Pelo contrário: esses profissionais geralmente têm formação de baixa qualidade, são menos experientes, não criam vínculos com a comunidade escolar e não executam o projeto pedagógico de forma continuada. Isso prejudica o nível de aprendizagem dos alunos.

Dilema e necessidade de ajustes

Os achados de Barbosa, Araujo e Sousa revelam um dilema: uma política pública mal desenhada pode degradar, em vez de melhorar, a educação básica no Brasil. Novos estudos podem indicar soluções, mas o que já se pode afirmar é que políticas públicas devem ser baseadas em evidências para serem eficazes e sujeitas a revisões constantes para correções. E, ao que tudo indica, o Novo Fundeb precisa de ajustes urgentes.

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