Ensino de jovens e adultos exige mais empenho das autoridades
Ensino de jovens e adultos exige mais empenho

A educação de jovens e adultos (EJA) no Brasil enfrenta uma crise silenciosa. Dados do Ministério da Educação indicam que 68% dos alunos matriculados na modalidade abandonam os estudos antes de concluir o ensino fundamental ou médio. O índice é alarmante e revela a necessidade de políticas públicas mais eficazes e de maior empenho das autoridades.

O desafio do abandono escolar na EJA

Segundo o Censo Escolar de 2025, a taxa de abandono na EJA é mais que o dobro da média do ensino regular. Enquanto no ensino fundamental e médio convencional o abandono fica em torno de 12%, na EJA ele atinge 68%. "É um problema estrutural que exige ações integradas", afirma a professora Ana Maria Costa, da Universidade de São Paulo.

Os motivos para o abandono são variados: dificuldades financeiras, falta de tempo, desmotivação e ausência de políticas de apoio. Muitos alunos trabalham durante o dia e não conseguem conciliar os estudos com a jornada exaustiva.

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Políticas públicas insuficientes

O governo federal lançou em 2024 o programa "EJA Conectada", que oferece aulas remotas e material digital. No entanto, especialistas apontam que a iniciativa não atinge as comunidades mais carentes, onde o acesso à internet é precário. "A EJA precisa de investimento em infraestrutura, transporte, merenda e acompanhamento pedagógico", diz o pesquisador Carlos Mendes, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.

Apenas 12% dos municípios brasileiros oferecem transporte escolar para alunos da EJA, segundo levantamento da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). A falta de recursos básicos desestimula a permanência dos estudantes.

Impactos sociais e econômicos

O abandono escolar na EJA tem consequências diretas no mercado de trabalho. Dados do IBGE mostram que trabalhadores com ensino fundamental incompleto ganham, em média, 40% menos do que aqueles que concluíram a etapa. Além disso, a baixa escolaridade está associada a maiores taxas de desemprego e informalidade.

"A EJA é uma ferramenta de inclusão social e produtiva. Deixá-la de lado é perpetuar a desigualdade", alerta a socióloga Maria Helena Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela defende a criação de um sistema de bolsas-auxílio para alunos de baixa renda, similar ao que existe em alguns programas de ensino técnico.

O papel das autoridades

O Ministério da Educação anunciou, em janeiro de 2026, a ampliação do orçamento da EJA em 15%, mas o valor ainda é insuficiente para cobrir as deficiências. A pasta também prometeu capacitar professores e ampliar parcerias com empresas para oferecer cursos profissionalizantes integrados à EJA.

"Precisamos de um pacto nacional pela educação de jovens e adultos. Não podemos aceitar que 7 em cada 10 alunos desistam", afirma o secretário de Educação Básica, João Pedro Alves. Ele reconhece que as políticas atuais são insuficientes e que é necessário um esforço conjunto da União, estados e municípios.

A EJA atende cerca de 3,5 milhões de brasileiros, segundo o Censo Escolar. Desse total, apenas 1,1 milhão concluiu o ensino fundamental ou médio em 2025. O número representa uma queda de 8% em relação a 2024, indicando que a evasão continua crescendo.

Caminhos para a solução

Especialistas sugerem a adoção de currículos mais flexíveis, que considerem a realidade dos alunos trabalhadores. Também defendem a criação de polos de EJA em bairros periféricos e zonas rurais, com horários alternativos e apoio pedagógico individualizado.

"A EJA não pode ser tratada como um apêndice do sistema educacional. Ela precisa de políticas específicas e de um olhar atento para as necessidades dos jovens e adultos que buscam uma segunda chance", conclui a pesquisadora Ana Maria Costa.

Enquanto as autoridades não se empenharem de fato, milhões de brasileiros continuarão excluídos do direito à educação básica, com graves consequências para o desenvolvimento do país.

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