Como a educação sexual dos meninos ignora afeto e gera violência
Educação sexual dos meninos ignora afeto e gera violência

Muitos adolescentes aprendem sobre sexo cedo, mas quase ninguém está ensinando sobre afeto, consentimento e responsabilidade emocional. A constatação vem de especialistas e educadores que observam uma lacuna na formação dos meninos, enquanto as meninas recebem orientações sobre prevenção e proteção.

O que está por trás dos casos de estupro coletivo?

Casos recentes de estupros coletivos praticados por meninos adolescentes no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte acenderam o alerta. Em Belo Horizonte, um dos agressores era amigo de infância da vítima. A psicóloga e educadora sexual Marina Lemos, autora do artigo que inspirou esta análise, questiona: “Quem está educando esses meninos?”.

Enquanto a atenção se concentra nas meninas — vítimas frequentes dessas violências —, a formação dos meninos é negligenciada. “Falamos sobre menstruação, gravidez precoce, métodos contraceptivos, proteção, violência, assédio. O início da vida sexual delas acontece pela conversa, pelo diálogo”, explica Lemos. “Mas enquanto ensinamos meninas a se protegerem, o que estamos ensinando aos meninos? O oposto.”

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Performance masculina e a objetificação feminina

Muitos meninos chegam à adolescência sabendo bastante sobre sexo e muito pouco sobre relações. Antes de qualquer adulto sentar com eles para falar sobre afeto, já aprenderam sobre desempenho, conquista, prazer e prova de masculinidade. “Meninos adolescentes precisam provar que são capazes de conquistar uma menina para pertencer. Isso antes de ‘provarem’ que podem sentir emoções”, destaca a educadora.

O rito de passagem tradicional — levar o garoto a uma casa de prostituição para a primeira relação sexual — ensina que o sexo é um ato de domínio sobre um corpo pago, sem afeto ou desejo genuíno. “Não tem ninguém ensinando esse menino sobre toque afetivo, sobre relação amorosa, respeito, o desejo do outro. Muito pelo contrário, reforça-se que sentimento não tem espaço”, afirma Lemos.

Essa lógica está enraizada na linguagem cotidiana (“vou pegar aquela mina”), na publicidade que usa o corpo da mulher para vender produtos, na pornografia e na sociedade como um todo. Meninos não nascem machistas, mas se tornam por meio de uma socialização sexual que frequentemente circula entre outros homens sem ensinar afeto, respeito, vulnerabilidade e responsabilidade.

A influência das comunidades digitais

Pesquisadores das masculinidades, como o sociólogo Michael Kimmel, alertam para o impacto das comunidades digitais na formação dos meninos. Kimmel descreve como muitos jovens são capturados por narrativas que transformam inseguranças legítimas da adolescência em ressentimento contra as mulheres. Em vez de aprenderem a lidar com rejeição, vulnerabilidade e frustração, aprendem a enxergar mulheres como responsáveis por suas dores.

O documentário Machosfera, da Netflix, expõe o processo de radicalização gradual que começa em conteúdos aparentemente inocentes sobre autoestima e sedução e evolui para discursos que naturalizam misoginia e objetificação. “Narrativas misóginas e machistas encontram eco onde há espaço vazio. Se você não educa, se você não traz referências de masculinidades possíveis, alguém o fará”, adverte Lemos.

Urgência de uma nova abordagem educacional

Para a educadora, a solução passa por falar com os meninos sobre consentimento antes que aprendam sobre conquista; sobre afeto antes da performance; sobre rejeição antes do ressentimento; e sobre meninas como sujeitos antes que aprendam a vê-las como validação. “A gente precisa chegar antes”, resume.

“Porque se a gente quer acabar com o que chega lá no fim, que é uma estatística de feminicídio, a gente precisa começar a educar os meninos de outra forma, para uma outra masculinidade. Educar para a sexualidade não é apenas falar sobre sexo”, conclui.

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