Sorocaba tem 37 leis sobre autismo, mas desafio é aplicá-las na prática
Sorocaba: 37 leis sobre autismo, mas aplicação falha

A Câmara Municipal de Sorocaba recebeu 37 projetos de lei voltados a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre 2018 e 2026, segundo levantamento do g1. Apesar do avanço legislativo, entidades ouvidas pela reportagem afirmam que o principal desafio hoje não é criar novas leis, mas garantir que os direitos já previstos sejam aplicados na prática.

Legislação de base e projetos recentes

Uma das ações legislativas mais importantes sobre o tema em Sorocaba é a lei municipal 10.245, de 4 de setembro de 2012, que institui a política de atendimento à pessoa com Transtorno do Espectro Autista. A norma reconhece pessoas com TEA como pessoas com deficiência, garante validade indeterminada ao laudo médico e estabelece atendimento terapêutico individualizado em clínicas e hospitais privados. A lei também define diretrizes para inclusão escolar, como adequação curricular, uso de tecnologia assistiva e vedação a transferências forçadas.

Desde 2018, 14 dos 37 projetos foram transformados em lei ordinária. Entre as novas leis estão a criação do mês "Abril Azul" (281/2025), a adaptação de parques infantis (290/2025) e a obrigatoriedade de permanência do aluno com TEA na unidade escolar (252/2021). Atualmente, 17 projetos estão em tramitação, dos quais 13 prontos para entrar na pauta ou em fase de votação.

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Especialistas apontam falhas na implementação

Sandra Regina Florio, presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB de Sorocaba, avalia que o número de projetos mostra uma preocupação crescente, mas destaca que a legislação sozinha não resolve o problema. "A evolução legislativa, sozinha, não é suficiente. O grande desafio que a gente ainda tem no Brasil é a questão da efetivação dos direitos que já estão reconhecidos", afirma. Segundo ela, é comum famílias recorrerem à Justiça para obter o que a lei já assegura, o que expõe falhas na implementação das políticas públicas.

A Associação de Pais do Espectro Autista de Sorocaba (Apeas) também reconhece o avanço, mas cobra atendimento na prática. "Mais do que criar novas leis, é preciso garantir que elas resultem em atendimento digno, acessível e de qualidade durante toda a vida da pessoa autista", afirma a entidade em nota. Uma das maiores preocupações é a demora no acesso a terapias especializadas pelo SUS, como fonoaudiologia e terapia ocupacional.

Projetos em destaque e criação de secretaria

Entre os projetos em tramitação, destacam-se a instalação de sala de estabilização sensorial (808/2025), o fornecimento gratuito de fraldas descartáveis (758/2025) e a garantia de professor de apoio fixo para alunos com TEA (289/2025). Já foram arquivados projetos como a obrigatoriedade de fones antirruído em supermercados (484/2025) e a criação do censo municipal (181/2023).

Em 2025, a prefeitura de Sorocaba criou a Secretaria de Inclusão e Transtorno do Espectro Autista, comandada por Tania Mara da Cruz Tonet, para coordenar políticas públicas voltadas ao TEA.

Desafios para além da infância

A Apeas ressalta que o autismo acompanha a pessoa por toda a vida e que adolescentes, adultos e idosos autistas enfrentam dificuldades ainda maiores para conseguir atendimento especializado. "As políticas públicas não podem se limitar à infância", alerta a associação. O levantamento do g1 mostra que, apesar do número expressivo de leis, a efetivação dos direitos continua sendo o principal gargalo em Sorocaba.

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